domingo, setembro 27, 2009

A ECONOMIA POLÍTICA DA VELOCIDADE


Em entrevista a Revista Ñ do jornal O Clarin, de Buenos Aires, Ricardo Piglia, um dos principais escritores argentinos da atualidade fala do "Elogio de la lentitud." [1]"A circulação da escrita parece alcançou uma velocidade extraordinária, mas o paradoxo é que o tempo de leitura não mudou. Lemos, hoje, como líamos no tempo de Aristóteles: vamos decifrando signo após signo e isto nos coloca em uma situação similar a que tínhamos na época em que a circulação da escrita não era tão rápida"."O autor W. H. Hudson, por exemplo, nos conta em "Allá lejos y hace tienpo" um livro de 1918 que descreve sua vida nos pampas argentinos como lhe chegavam para leitura os romances e como depois de lê-los os emprestava para fazenda vizinha, cinco quilômetros adentro, que depois era emprestada a uma outra mais para frente. A escrita ia se alastrando a cavalo.""Quem escreve um Blog sente que é importante escrever sobre sua própria vida. Mas depois tem que caçar leitores. Há que analisar quem quer se deter ali...Falar da instantaneidade de contato é sempre relativo".

Charles Babbage, matemático inglês (1792-1871). escreveu o Tratado da economia das máquinas e das manufaturas em 1832 [2]. Seus trabalhos o levaram a imaginar máquinas de calcular combinando as possibilidades das calculadoras e dos cartões perfurados Uma previsão destas máquinas e como sua velocidade está modificando as relações do homem em geral e da economia em particular nos leva a pensar em uma “ Economia política da velocidade”.

Paul Virilio com seu livro “A Arte do Motor “ nos inspira a falar de velocidade. Segundo Virilio a realidade convive e conviveu com cinco motores na ligeireza da inovação. [3]

Inovações tecnológicas transformam e desterritorializam o espaço geográfico em todas as escalas. Os motores da história mostram como as técnicas transformam as relações entre os indivíduos e seu modo de coexistência pela incidência da velocidade em mundo cada vez mais automatizado.

O primeiro motor, o vapor ocasionou uma primeira revolução na informação pela revolução industrial. Foi o motor a vapor que permitiu uma leitura do mundo através da velocidade do trem, uma visão sucessiva e nítida como em um folhetim que se vai se contando até o final do destino. Cada motor modifica a realidade por sua mediação com a velocidade do aceso e recuperação da informação e com o nosso atuar no mundo.

O segundo motor, o motor de explosão, propiciou o desenvolvimento do avião. Voando, o homem obteve uma visão inédita da informação e do mundo. Seria o sonho da distribuição da informação ter a possibilidade de ver os labirintos dos arquivos por cima. Entrar em um arquivo expõe a velocidade do acesso aumentada pela visão geral dada pelo motor aéreo.

O viajante tem uma visão de cima para baixo e como um avoante pode ver as tramóias, os caminhos certos para a informação desejada. A velocidade no ar relativiza o tempo local de um espaço com todas as implicações econômicas e de socialização que esta condição potencializa. O avião Concorde saindo da Europa chegava aos EUA, hora local, antes da partida de Londres.

O terceiro motor, o elétrico, deu origem à turbina, favoreceu a eletrificação e é precursor das conexões para troca de informações entre dispositivos inclusive a imagem em movimento que mudou o olhar do homem. Com o motor da eletricidade conectamos diversos apetrechos elétricos de transferência de informação como o rádio, o telefone e o fax que eliminaram a pontualidade do tempo local.

O quarto motor é o motor-foguete e sua velocidade possibilitou escapar da atração terrestre. O indivíduo foi colocado em outro lugar do mundo com um distanciamento e uma nova visão da terra a partir de um outro espaço. O distanciamento preparou o homem para olhar do mundo para a terra; um incrível afastamento de sua realidade vivencial.

O último motor é o motor informático, da velocidade do tempo online, o tempo zero, é o motor que coloca o homem em uma realidade do agir digital. A informação digital online modifica toda a afinidade com o real e permite vivenciar uma realidade potencial: da convivência sem presença física. Consente uma velocidade que interatua em todas as condições de uma nova experiência de informação e econômica de trocas com o mercado.

A economia da informação observa como a informação ou sua falta afeta o processo decisório. A velocidade das trocas de informação influi, portanto, em muitas áreas como finanças, seguros, direito e no processo decisório, mais quando em condições de risco e incerteza.

Falta, assim, delinear uma nova economia política da velocidade da informação com toda a repercussão que esta possa ter nas macro relações de produção e decisões envolvendo a articulação dos fatores básicos como o capital e o trabalho.

Aldo de A Barreto

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Notas:
[1] Elogio de La Lentitud, O Clarin, Revista Ñ de 25/01/2008
[2] Babbage, Charles (1835). On the Economy of Machinery and Manufactures , Charles Knight, London
[3] Paul Virilio, A Arte do Motor, Estação Liberdade , 1996

terça-feira, setembro 22, 2009

O pensamento é uma onda elétrica pequenininha


Por muitos anos tem se esperado que a informação organize o mundo, pois apesar de "o pensamento nada mais ser que uma onda elétrica pequenininha se espalhando pelo cérebro em milissegundos" [1] ele referencia o homem ao seu passado histórico e ao seu desejo do futuro. Assim para instituir o saber no mundo a justa distribuição da informação dever estar organizada.

Muitas e antigas tem sido as idealizações de organizar a informação para estabelecer uma provável transferência de conhecimento. O livre fluxo de informação e sua distribuição equitativa tem sido um sonho de diversos homens em diversas épocas. A rede de saber universal foi uma preocupação desde as velhas sociedades científicas do mundo.

A luta por uma distribuição do conhecimento produzido pela humanidade vem desde o século XVII passando por cérebros e instituições. A construção da Enciclopédia de Diderot e D‟Alembert, Paul Otlet e o Mundialismo que inspirou o quase atual Decuverse de Theodor Nelson, Vannevar Bush e seus pesquisadores na segunda guerra mundial, a aldeia global de Marshal McLuhan, as idéias de Roland Barthes, de Jaques Derrida, de Claude Lèvi-Strauss, a Arqueologia do Saber de Michel Foucoult .

O ideal compartilhado seria o de se construir uma sociedade do conhecimento não só uma sociedade da informação. A sociedade da informação necessitava de aparelhamento e controle formatador em época que as estruturas eram fixas e o texto tradicional ditava um modelo único de estrutura. Nestes tempos idos se aplicava uma organização da informação onde o potencial humano era a possibilidade concreta em uma época de documentos e usuários escassos ou privilegiados pela densidade.

Já em 1945 ao findar da segunda guerra houve a uma explosão do saber acumulado no período e enorme abundância de informação que servia para inabilitá-la como um bem econômico escasso; a abundância relativiza o valor. Passou, então, a ser escassa a informação organizada com uma (in)tensão de criar saber. [2]

Em 1945 em seu artigo “As we may think” Vanenevar Bush teve a possibilidade de constatar na prática que a informação não poderia, quando em fartura ser organizada por pelo homem e sua técnicas iniciadoras. Bush tinha um grande medo de que se tornasse um exemplo de organização o que aconteceu com os textos de Gregor Mendel, que deram origem a toda a moderna genética e que foram publicadas em 1866, mas só foram redescobertas cerca de 100 anos depois em 1900. Certamente os escritos de Mendel não estavam em uma organização privilegiada da informação pelos cérebros da época e ficaram perdidos por uma geração atravancando os todos benefícios que hoje trazem para a sociedade o conhecimento genético.

Desde 1945 com o artigo de Bush e após, na reunião na Inglaterra em 1948 a Royal Society Scientific Information Conference ficou claro que 4 fatores impediam o a distribuição da informação e do saber no mundo moderno: a) formação inadequada de recursos humanos para lidar com o volume de informação a partir de 1945; b) o fraco instrumental de organização e recuperação da informação existente; c) o arcabouço teórico existente na área, que não explicava suas práticas: o homem não pensava hierarquicamente ou em formato fixo, mas sim por associação de idéias livres.

Enfim, nada trabalha melhor que o cérebro humano se bem orientado e dentro de suas possibilidades para organizar a informação em estoques pequenininhos. Mas em determinado momento quem resolve é a máquina. Esta contratação vem, também, desde Gottfried Leibniz em 1604 que dizia que o pensamento pode se manifestar no interior de uma máquina ou a mediação da escrita algorítmica de Boole para as pesquisas em máquinas e os “Marcadores de Luz” do plano de Francis Bacon de 1662. [3] [4]

Na abundância da informação o que pode lhe dar um valor de adequada escassez é a máquina ao lidar com os bilhões de postagem nos blogs do mundo ou as imagens depositadas no Flickr e no You Tube. Não é uma organização perfeita da informação como faria o homem. Não é, ainda, uma organização que deva estar modelada pela ideologia dos formatos determinados. E uma única opção no mar do sem sentido de um turbilhão de textos desformatados e abandonados.

Esta é uma nova realidade , um novo regime de informação, E “pobre la gente que nunca comprende un milagro de éstos y que sólo entiende, Que no nacen rosas más que en los rosales, y que no hay más trigo que el de los trigales!, Que requiere líneas y color y forma, y que sólo admite uma realidad por norma.Que cuando uno dice: “Voy con la dulzura”,de inmediato buscan a la criatura.” [5]


Aldo de A Barreto
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Notas:

[1] "O pensamento nada mais é que uma onda elétrica pequenininha se espalhando pelo cérebro numa escala de tempo de milissegundos" Miguel Nicolelis, neurocientista, em entrevista a Folha de São Paulo de 10 de junho [JC email da SBPC 3781]
[2] “(in) tensão” - a separação da palavra quer denotar seu sentido de direção (in) e a tensão de apropriação de um conhecimento quando o receptor assimila o pensamento de um emissor traduzido em uma informação colocada em um código comum a ambos
[3]Hobbes, T. (1997). De la Nature Humaine, traduzido do inglês para o francês pelo barão d´Hilbach, comentário de E. Roux. Saint-Amand-Montrond: Actes Sud.
[4] A Historia da Sociedade da Informação de Armand Matterlat, Loyola

[5] El dulce milagro de Juana de Ibarbourou poeta uruguaia.

sábado, setembro 12, 2009

INDICADORES VACILANTES E FICTÍCIOS


O relatório de 2008 do Journal Citation Reports Science Edition (Institute for Scientific Information, a Thomson Reuters, 2009) apresenta algumas inovações e um novo parâmetro bibliométrico chamado " 5-Year Fator de Impacto".

O tal fator é calculado baseado em uma média de cinco anos das citações que os artigos de um periódico em determinada área recebe, dois anos após sua publicação. Um agregado destes periódicos nas diferentes áreas é chamado de periódicos quentes.

Os Periódicos Quentes formam a base de dados dos estudos e avaliações da pesquisa, dos pesquisadores e da ciência usando as citações dos artigos fornecidas pela Empresa em questão. É o banco de dados usado, também, por outros estudos independentes que se dedicam a examinar a produtividade científica e de pesquisadores.

O fator de impacto pode influenciar a relação custo-benefício dos periódicos. Forma-se um ciclo vicioso e perpetuante: os pesquisadores são citados se escrevem em periódicos quentes, daí só querem escrever para um periódico se ele é quente. O circulo se regenera e se realimenta e pobre das outras publicações em ciência e tecnologia.

Mas o aumento considerável da co-citação e da co-autoria e da auto citação foi desvendado pelas condições das redes eletrônicas de trabalho e pesquisa como as novas características dos colégios visíveis eletrônicos; artigos escritos em redes de colaboração podem ter até 50 autores, por artigo, neles a troca de citações, em outros artigos, demonstra uma relação de afetividade colaborativa o com objetivo de manter o alto fator de impacto, a visibilidade e o benefício da revista e dos seus autores. [1]

A co-citação e co-autoria indicada na rede mostram as heranças entrelaçadas de anteriores e interesses individuais e corporativos. Daí o enorme receio de que, boa margem destas citações seja, também, provocada para garantir um do retorno do fomento colocado nas pesquisas. Uma troca de favores que abriga, também, quem conta as citações, pois as revistas quentes reduzem muito o universo a ser contado.

Existe, contudo um novo concorrente somando as referências o SCImago Journal & Country Rank, totalmente desenvolvido na Espanha na base de dados da Holland Elsevier. Teremos, então, uma possível diversificação de periódicos e fatores quentes.

Pelo menos a análise se expande. Não há nada melhor do que a concorrência para renovar e melhorar produtos e serviços. Em artigo o jornal espanhol EL País indica a questão das auto-referências como um aspecto que muitas vezes passa despercebida para muitos. [1]

"Uma percentagem elevada de auto-referências em uma revista profissional,i ndica o Jornal, pode significar, pelo menos, quatro coisas:

" A escassez de artigos em uma área do conhecimento,
" Poucas publicações na área do conhecimento
" Mal uso de literatura na área (e da pesquisa) e finalmente
" Uma fraude bibliométrica conhecida como engenharia do fator de impacto.”

"Na média de idade de revistas mais ou menos 50 anos temos entre 3% e 7% das citações da própria publicação. Encontramos revistas, com mais de 10% e isso nos colocou no caminho de uma possível alteração do famoso Fator de Impacto, um índice bibliométrico que é reverenciado por editores, centros acadêmicos, comités de seleção, sociedades profissionais, bibliométricos."

As revistas científicas continuam a ter muitos problemas para existir e competir nacional e internacionalmente. A engenharia do fator de impacto, em todas as suas formas e influências gera a deterioração da paisagem editorial e da liberdade de expressão gerando um ganho irreal de competitividade ou um impacto bibliométrico fictício.


[1[ Fontes: colocações da nossa lista e o artigo "Las revistas científicas españolas y el fraude bibliométrico" publicado por Juan Aréchaga em 11/09/2009 no jornal EL PAIS, Espanha, http://tinyurl.com/m5dypl
[1] Co-autoria como indicador de redes de colaboração ciêntífica, Artigo http://www.eci.ufmg.br/pcionline/index.php/pci/article/viewFile/215/471


Observação: As estatísticas primárias são definidas como dados iniciais de uma pesquisa pela contagem em campo obtida a partir de respostas aos diversos inquéritos feito em organizações e com aos cidadãos sobre um tópico específico. Indicadores são informações elaboradas a partir destas estatísticas primárias compostos, geralmente, pela agregação e relacionamento de duas ou mais séries de estatísticas primárias. Os indicadores só existem com validade se apoiado em dados corretamente coletados de forma primária.

quarta-feira, setembro 02, 2009

A comunicação inacabada


Todo homem se desenha pelas escolhas que vai fazendo ao longo de sua vida. Nenhum objetivo importante é alcançado sem alguma luta, sem algum conflito, consigo mesmo e com os outros. A natureza humana é contraditória e tão forte é a contenda do ser que transcende para as condições de convivência do homem na terra.

Vivemos em uma articulação de conflitos e somos contraditórios, não conseguimos viver sem disputas. Tudo isso já era difícil quando em um existir face a face e presencial em uma realidade entre objetos e outros habitantes. Mas com a inserção da realidade virtual, em nossa convivência cotidiana, cada vez mais vivemos uma existência sem a necessidade de uma presença física, um entreolhar, um gesto, o toque e a sensibilidade da linguagem do corpo do outro.

O radicalismo do viver virtual leva a desentendimentos e até algumas batalhas são formatadas pela ausência da presença absoluta, pela a carência do contato físico. Os nativos da Internet são os mais propensos a sofrer da Síndrome da comunicação catódica*. Nasceram na virtualidade e conviveram com ela e com seus games e seus gadgets de mediação corporal. Alguns destes nativos se assombram com o tête-à-tête, a compleição do formato físico, os sons divergentes em cada fala, as emanações voláteis do corpo. Eles temem até mesmo usar o telefone com sendo uma extensão do homem.

Isto pode levar a desajustes tolos e sem sentido no relacionamento. Ou decisões profundas como tomou “Bartleby, o escrivão” de Melville, que em um determinado momento da vida deixou de escrever e por uma questão de sua própria escolha “I have chosen not to write again" disse e nunca mais escreveu até morrer *

Assim pode terminar o excessivo comunicador virtual: um estranho refugiado em seu próprio casulo pensando que de lá está falando, com clareza, para a cidade e para o mundo - "Urbi et Orbi".

Incomunicável, e por uma escolha sua, dentro de um espaço que é de apetrechos de comunicação. Já na história do teatrólogo alemão Bertolt Brecht, está a incomunicação que venceu no tempo:

O senhor Keuner estava tranquilamente em sua casa, quando esta foi invadida por um gigante fardado que o interpelou: “Queres servir-me?”

O senhor Keuner, então, foi para a cozinha e passou a preparar comida para o invasor. Durante semanas, meses e até anos, preparou acepipes variados, sobremesas deliciosas e excelentes bebidas para o gigante. Um dia, após muitos anos, o gigante morreu. O senhor Keuner arrastou o cadáver até o fundo do jardim, jogou-o num buraco e respondeu: “Não!”.

A incomunicação do senhor Keuner se revelou mais forte do que o tempo, mas sua resposta ao desentendimento consumiu uma vida.

Aldo de A Barreto
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* Notas:

- Bartleby, o escrivão de Herman Melville
- Síndrome da comunicação catódica - excessivo uso de uma superfície capaz de emitir elétrons quando iluminada em uma tela de pixels de fosforo. Exemplo: um monitor de um PC
- Historias do Sr. Keuner de Bertolt Brecht

domingo, agosto 30, 2009

A máscara e a convivência virtual


Em dias de web, a facilidade de interação pela tecnologia de visualização da informação escrita tem facilitado e incrementado a constituição de grupos de pessoas para uma convivência colaborativa em redes eletrônicas.

Pelo menos dois fatores são facilitadores para esta agregação de pessoas: as tecnologias de sociabilidade aumentaram a possibilidade da ação coletiva de pequenos grupos para perseguir o mesmo objetivo. O novo modelo explora, ainda, formas inéditas para o processo de trabalhar em conjunto, com grupos descentralizados ou concentrados. Mas, nem sempre a opção colaborativa em rede é a escolhida devido ao foco que coloca nas pessoas do grupo.

A incidência de um tradicionalismo cultural, do viver por uma presença recolhida, em uma realidade sem exigências desta exposição no mundo real e objetivo é ainda muito forte. A liberdade das redes de convivência expõe de forma ampla e imediatista o pensar e a expressão escrita em uma visibilidade, sempre requerida por esta opção. Neste caso o receio da exibição pública de idéias particulares pode restringir a convivência no ciberespaço. São mitos reservados e lendas de enunciação em uma configuração do desejo de liberdade de falar para todos.

As narrativas tradicionais lineares lembram a composição dos mitos por terem uma enunciação semanticamente autônoma, mas referênciada ao seu próprio mundo fechado em sua esfera de verdade. Com seu enunciado ritualista, marcado pelo seu caráter de sagrada realização repetitiva, o mito, assim como, o documento linear se conta e se reconta sempre em um mesmo sentido da narração; a ele se acrescentam só interpretações da recontagem, mas conserva uma representação que procura ser fiel ao proclamado original. São narrativas mais prudentes em relação ao tempo e espaço de exposição publica.

Uma estrutura aberta de socialização das enunciações escritas se assemelha a lenda, porque os textos se entrelaçam e se agregam a outros textos, colados pela intercessão de geradores, que também são receptores. O trabalho colaborativo aberto é lendário, pois qualquer seja o seu núcleo inicial de intenção, representará depois, a soma do que dele se diz, de acordo com seu percurso. É uma narrativa que percorre a sua própria aventura virtual e passa a ser independente de um único autor. Diferente do mito que possui uma só representação no real; a lenda possui um núcleo tutor e uma bricolagem de atributos que a ela aderem. Dois atos diferentes de conviver a informação e se mostrar ao mundo.

Ao enunciar atos de informação transferimos fatos e idéias esperando convencer nossos espectadores privilegiados que irão, por opção nossa, julgar e acolher nossos feitos, ditos ou escritos sejam eles mitológicos ou lendários e repassar esta apreciação ao longo do tempo.

O que falamos e escrevemos é para registro junto a nossas testemunhas. Nossa vida ativa acontece em uma condição testemunhal. Todos querem participação e visibilidade quando produzem enunciados em conjunto, mas muitos não querem a exposição e o julgamento imediato que disso resulta. No mundo da visibilidade nossa atuação se relaciona a esta condição de convencer e não decepcionar as testemunhas que confirmam o nosso atuar como marcos no caminho de nossa aventura existencial.

Cada um de nos tem várias e diferentes testemunhas: a família, os amigos, os alunos, leitores e pares nas diversas comunidades de convivência funcional. Se não lidamos bem com este alardeio publicitado, as nossas trocas de informação podem se alterar, pois a cerceamos pelo temor do julgamento destes espectadores previstos.

A informação não existe sem testemunhas e toda a memória que ela forma depende desta validação. Os estoques de memória existem, enquanto existirem as testemunhas e as testemunhas das testemunhas do que lá se encontra. A nossa escrita cria, assim, um domicílio documental de memória ao qual podemos sempre recorrer ou regressar para uma acolhida de atestação. As nossas narrativas contadas mantêm uma memória iluminada no presente.

Quando trocadas em colaboração virtual estas mensagens mostram a individualidade em tempo real e imediato e muitos preferem a máscara de uma condição recolhida, impressa e encadernada por muitas revisões. É uma questão cultural que o apressamento cibernético não mudará a curto prazo. Mas que irá conferir certa invisibilidade a quem optou pela máscara.

domingo, agosto 23, 2009

O valor e o preço da informação


A informação é muitas vezes referida como mercadoria* de consumo ou bem econômico para facilitar sua inserção no mundo dos negócios, das tecnologias e, também, no mundo acadêmico e da consultoria. Parece, talvez devido à nova economia de textos da web, que o enfoque informação - produto voltou ao foco da reflexão em salas e congressos. As notas abaixo já foram pensadas por nos e nossos alunos 1990 quando, ainda lecionava no Programa de Pós-Graduação uma disciplina de Economia da informação, já que a nossa tese de doutorado tratou deste assunto.


Contudo, em termos econômicos, a informação seria um bem torto, por não possuir os atributos necessários para esta caracterização, isto é: não tem uma clara unidade de medida, não é divisível, é abundante e não escassa, não é homogênea, não se extingue com o consumo, e, sobretudo quando consumida não se transforma em propriedade do consumidor; sua posse pelo gerador mesmo defendida por marcos legais é de difícil manutenção.

Um quilo de batatas tem uma clara e divisível unidade de medida, é razoavelmente homogêneo a outro quilo de batatas, é escasso, e o meu quilo de batatas não vai para a panela de mais ninguém. Acaba quando eu como as minhas batatinhas. Quem fala em mercadoria* informação, sem as devidas ressalvas, pode estar falando do seu formato, da sua base física e não de seu conteúdo simbólico.

O mercado de informação, se existe, é atormentado pela relação: preço - valor. A mesma "mercadoria" * informação possui um valor diferente para diferentes consumidores. Configurar um preço de equilíbrio é impossível, pois tal preço pode estar muito abaixo ou muito acima do que diferentes usuários, com diferentes necessidades, lhe atribuem e estão dispostos a pagar por ela no mercado. Fácil colocar preço no objeto livro, no periódico, no jornal, no disco, mas então, estamos falando de dispositivos e não do conteúdo.


Por razões semelhantes à informação, também, não é um insumo ou um fator de produção; por definição (na teoria da produção) todo fator de produção perde suas características, desaparece, no processo de produção para fazer surgir o novo produto. E isto não acontece com a informação. Por exemplo, as meadas de algodão desaparecem quando da fabricação do casaco. Existe informação agregada em todo o processo de produção do casaco, mas ela permanece a mesma após a finalização da produção.

Seguindo esta linha de reflexão indicamos que o conceito de valor é relativo e específico para cada indivíduo, de acordo com a sua escala de preferências, a sua hierarquia de desejos. Um indivíduo valoriza o conhecimento - A - em relação ao conhecimento - B - dentro desta escala de preferências, de utilidade e prioridade para ele. Neste caso, o valor do conhecimento A, para cada indivíduo, vai depender:

I. De sua preferência pelo conhecimento A em detrimento ao conhecimento B;

II. Da sua competência cognitiva em decodificar A e B e assim tornar possível uma comparação e uma apropriação;

III. Do conhecimento A e do conhecimento B estarem em um código que seja simbolicamente significante para o receptor.

Assim, se no julgamento do receptor, o valor do conhecimento A é maior que o valor do conhecimento B o receptor efetuou uma decisão de utilidade entre os dois. Portanto, o valor entre duas opções é relativo, obedece a critérios de demanda e só se efetiva na potencialidade da absorção do conhecimento pelos receptores

Todo ato de conhecimento está associado a um conteúdo simbólico de um dispositivo de informação e representa uma cerimônia com ritos próprios e uma passagem simbolicamente mediada para o receptor da informação. Na ambiência de informação há que se acrescentar a tipologia de valor simbólico que é a capacidade do receptor em traduzir o conteúdo da mensagem para o seu entendimento. O valor de troca ou de mercado no mundo simbólico dos conteúdos do texto são medidas imponderáveis,


Na realidade prótese do ciberespaço há que considerar, ainda, que artefatos informacionais em rede digital, são objetos de informação que estão, ou em se fazendo ou que, apesar de acabados, podem ter seu conteúdo modificado continuamente, devido a um sucessivo diálogo com o gerador ou uma conversação com um coletivo de participantes. Aqui só pode existir um valor circunstancial de uso da informação, pois a sua utilidade para o receptor está pendente de um acabamento.

A medida de relevância e de valor está presa em uma relação de expectativas circunstanciais do usuário que espera contar com a coisa pronta. Valor e relevância estão presos em um determinado momento de completeza na expectativa de um de fechamento esperado. O Painel da ONU sobre o tempo e a Rede de pesquisa do DNA são exemplos, pois elaboram documentos que estão em se fazendo.

A propriedade intelectual de uma informação que se encontra em se fazendo e em um suporte digital, que é socialmente construída por diversos geradores dependerá de se estabelecer um código de convivência e trocas ainda não pensado e restará determinar na finalização de quem é a propriedade da coisa toda.

Aldo de A Barreto


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* por mercadoria estamos indicando, somente, a condição técnica de produção de um produto. Não estamos, aqui, vinculando ao termo a ideologia relacionada com os fatores de produção.

domingo, agosto 16, 2009

Sensação e percepção na relação informação e conhecimento


Para instrumentar e delimitar o pensamento subsequente defino o conceito de informação como sendo:

Conjuntos simbolicamente significantes com a competência e a intenção de gerar conhecimento no indivíduo em seu grupo e na sociedade.


Assim a informação fica qualificada como um instrumento modificador da consciência do homem e de seu grupo social. Deixa de ser uma qualidade para reduzir incerteza, para ser a própria qualidade em si.

Fica estabelecida uma essência que é a existência da relação entre informação e conhecimento, que só se realiza se esta for percebida e aceita como tal.

Passa a existir na minha reflexão uma condição estética daquela essência relacional que é a sensibilidade para apreender a informação, a emoção que tenuemente precede a percepção e representa o sentimento da momentaneidade de um sentir o mundo.

Os sentidos são a interface para apreender o percebido. Dá-nos uma concepção dos objetos e uma confiança em sua existência, mas com uma sensação que precede a percepção. A sensação que tenho ao admirar a obra de arte direciona a individualidade perceptiva e leva a apropriações individualmente diferenciadas. Aqui a linguagem se encontra com sua interface.

A linguagem como um código permeia a condição humana já a escrita como interface é uma tecnologia moderna e não existem muitos sistemas de escrita. A escrita como a manifestação gráfica de uma língua se flexiona no tempo e no contexto.

Só a informação inscrita, linear ou digital, tem lugar no continuum do perceber ao conhecer. A inscrição se revela na plasticidade de uma obra gravada em alguma forma de escrita e ela permite a conexão gráfica entre gerador e receptor, desde que os dois a possam traduzir.

Nossas mentes forjadas em uma existência oral não lidam bem com os registros da escrita e a assimilação pela tradução do código implica em redesenhar cadeias de pensamento integrando novas conexões, vinculações virtuais e qualidades cognitivas.

A percepção da escrita é complexa e envolve decodificação, recognição e interpretação. Abrange uma configuração mental com a participação de atributos específicos de avaliação, memória, signos, significantes e significados. Uma sucessão de eventos que se ajustam, para entender o significado.

Esta apreensão se dá em um momento do presente em confluência com o passado e na perspectiva do futuro. Mas na realidade virtual, a percepção está em um tempo online em uma velocidade sem distância e a interiorização acontece em um presente imponderável, pois a coisa toda faz com que passado e o futuro como que desabem no presente, de tempo real, para a assimilação dos conteúdos. Uma vivência em um presente que é a soma de todos os tempos.

Ali se processa um conjunto de atos voluntários, pelo qual o indivíduo reelabora o seu mundo modificando seu universo de conteúdos simbólicos. É o inicio do algo que nunca iniciou antes, mas que encadeará em uma consequência, ainda que, o continuum iniciado não finalize em uma realização. O conhecimento é uma onda formada e acabada em milissegundos. Por isso se evapora no momento de sua geração.

Para que o conhecimento opere é necessária a transferência dos significados simbólicos para a realidade dos receptores em uma conjuntura favorável de interação. Nesse momento nada é menos global que a informação, pois nada é mais, privado e individual que a sensação que precede a sua assimilação. Um processo diferenciado para cada receptor, um lugar individualizado para o significado que lhe é destinado.

Aldo de Albuquerque Barreto

Súmario da publicação em Colunas no DataGramaZero v.10 n.4 ago/09

http://www.dgz.org.br/ago09/F_I_com.htm

sábado, agosto 01, 2009

O leão a caçada e o Vôo de Levy



Ah, Ahab, no mar te deixo sem bote, que te conduza, sem bóias que te sustentem, entregue a tua pequenez de homem *







Na idade média, que consideramos como algo entre os anos 900 e 1300, a informação era um privilegio erudito e estava retida nos muros dos mosteiros cuidada e vigiada pelos frades bibliotecários. Umberto Eco no livro O Nome da Rosa mostra esta prisão no discurso de Jorge, o chefe dos monges copistas da abadia medieval:

"Mas é próprio de nosso trabalho, do trabalho de nossa ordem em particular e deste mosteiro o estudo e a custódia do saber, a custódia digo não a busca, porque é próprio do saber coisa divina, ser completo e definido desde o inicio, na perfeição do verbo que exprime a si mesmo". "Não há progressos, não há revoluções de períodos na história do saber, mas no máximo, continua e sublime recapitulação."

A informação foi cativa, por longos anos, em diferentes muralhas: desde os monastérios aos universos simbólicos particularizados pelas ideologias para organizar e controlar o saber, passando pelos monopólios editoriais. Entre alforrias e prisões ela chegou até a época da Internet quando grande parte dos textos é democraticamente liberado, livre e em linguagem natural. Mas muitos insistem em continuar operando na sublime recapitulação medieval.

A área de informação se construiu continuamente ao sabor das inovações da tecnologia. É um campo voltado para as aplicações e por isso sua possível estrutura teórica corre atrás das práticas já estabelecidas para tentar uma explanação que se agregue, a posteriori, a um fragmentado corpo. Por isso prefiro sempre lidar com a sua historiografia que com sua epistemologia acompanhante.

Pois, contar a história de como se atuava com a informação no passado é didático e fundamental para o entendimento da evolução da coisa toda e para basear sua memória. "Enquanto o leão não escrever a sua versão a memória da caçada exaltará ao caçador"

O livre fluxo de informação e sua distribuição equitativa tem sido um sonho de aplicação tecnológica de diversos homens em diversas épocas. A rede de saber universal é uma preocupação desde a Academia de Lince, na Itália, talvez a mais velha sociedade científica funcionando desde 1603. Para conseguir este intento as técnicas para tratar a informação vêm mudando sucessivamente sem que o novo acabe, totalmente, com o que existiu.

O leão que habita os agregados de informação sofre os efeitos da tecnologia caçadora que é de busca assídua, mas também de acossamento. A tecnologia atua como no "vôo de Levy” * que explica os grandes saltos e depois o ciscar das técnicas paralelas no mesmo padrão.

Depois de 1945 Vannevar Bush saltando para o novo, em um longo vôo, mudou o pensar e as práticas da informação e sua distribuição. Um novo vôo veio de meados de 1980 até 1995 com a informação assumindo um novo status com a internet e a interface gráfica web.

As tecnologias de informação e sua disseminação modificaram aspectos fundamentais, tanto da condição da informação quanto da sua participação na vida de todos. Estas tecnologias intensas mudaram o tempo e do espaço na relação estabelecida entre os emissores e os receptores para criação e acesso aos seus estoques. A situação criada a partir de 1995 com a web permite a existência de um eu-prótese instrumentado para lidar e publicitar a informação em uma nova configuração com o tempo, o espaço e a leitura. É o leão contando sua história e se posicionando na memória da caçada.

O arcabouço tecnológico que possibilita esta nova interação ainda é restritivo em termos econômicos e requer aprendizado; não está socialmente resolvido para todos, mas isto não anula as condições que colocam a informação eletrônica como uma nova maneira de ingresso e participação mais democrática no jogo dos enunciados para compor a narrativa final.

É preciso,contudo, refletir sobre qual é o limite da tecnologia ou da incessante busca nesta caçada perseguindo a informação como meio de ascensão igualitária. A partir de que ponto este conjunto de técnicas deixa de ter interesse social.

Seria o limite da tecnologia o momento em que a inovação criada se volta contra o indivíduo? Iniciando problemas éticos, legais, socioeconômicos e mudanças na relação do homem com suas próteses. As tecnologias de informação de tão intensas em inovação podem aumentar os poderes das máquinas transformando o indivíduo em objeto destes poderes.

Tem sido pensado neste tempo cibernético a questão da importância da tecnologia quando ponderada com a possibilidade de uma existência mais simples, menos imediata e com a felicidade pautada pelo singelo e doce sentimento do passar da existência.

Uma considerável parte da convivência atual acontece virtualmente em uma realidade paralela. Cada vez mais a opção de um viver escondido se mostra nos "Chats", no "Facebook", no "Twitter" e espaços virtuais paralelos. Uma segunda vida é possível. O sentimento da existência pode agora ser vivido por nosso eu-prótese existindo em espaços de vivência sem presença.

Esse é um fatalismo da realidade eletrônica quando exclui do mundo o contato corporal para o conviver na felicidade do virtual onde a energia é a emergência em todas as suas com sequências. A felicidade pela visibilidade está colocada no discurso interior do diálogo consigo mesmo e com o outro, colóquio que não existe fora de um contexto de sociabilidade mesmo no mundo cibernético.
Aldo de A Barreto
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* Moby Dick de Herman Melville [a história de uma caçada]

* O vôo de Lévy é tese do matemático francês, Paul-Pierre Lévy (1886 - 1971), explica um movimento vantajoso, por exemplo, quando uma fonte de alimento está distribuída de maneira esparsa e aleatória. A estratégia mais proveitosa para um animal em busca de uma refeição é, nesses casos, fazer grandes jornadas e depois ciscar em pequenos movimentos e por um tempo para vasculhar os arredores. Se não encontrar mais nada, é voar para outra zona distante onde a probabilidade de encontrar novo alimento talvez seja maior.