Domingo, Janeiro 31, 2010

A informação superposta


Considere uma pesquisa para as obras de Shakespeare. Com a tecnologia que existe hoje, para um determinado termo de sua obra podemos encontrar em todas as linhas de sua obra o lugar onde o mesmo termo é usado nos seus escritos completos. Esta concordância é um exemplo do que chamamos de seguir determinados conteúdos sobrepostos e que se apresentam em camadas cronológicas. O trabalho consiste em suplementar uma informação criando todas as suas menções em um mesmo contexto de aplicação.

Exemplos, deste tipo de necessidade de seguir informações, sobrepostas em camadas são: os prontuários médicos, arquivos cronológicos, a notícia em um canal de mídia, as camadas de dados e reflexões de uma pesquisa e até mesmo reconstrução de uma discussão, escrita e oral, sobre o desenvolvimento ou projeto de um produto ou serviço em um site ou serviço de email tipo wave para convivência empresarial.

A informação sobreposta deve ser linkada para uma referenciação ou estudo do problema em suas diferentes fases de ocorrência. Esta linkagem normalmente acontece para documentos relacionados em camadas verticais e não se configura com o critério de uma abordagem hipertextual onde a saída do texto tutor é de livre escolha no espaço e no tempo.

As informações quando sobrepostas podem ser administradas colocando marcas nas mensagens que vão em seguimento no empilhamento das camadas, a partir de um documento tutor inicial. As camadas de base e seu seguimento podem incluir múltiplos e heterogêneos formatos de documentos, o que requer um esquema de endereçamento inteligente, para reunir as informações armazenadas em todas as camadas incrementais da coisa estudada. A compilação deve permitir a criação e a resolução de um sistema de marcas para os documento superpostos já existentes e os que virão a se empilhar.

Na informação sobreposta seguimos os links como se fosse as pegadas deixadas por um caminhar na arquitetura de conteúdos específicos. Esta informação se relaciona diretamente com o documento tutor que é aquele ao qual se adicionam camadas em um conjunto encadeado. O valor do documento é dado pela possibilidade de “montar” todas as camadas do encadeamento e de uma aplicação que permita o seu seguimento em completeza. Um só documento do conjunto não forma um valor que só existe se é agregado pela soma de toda a série.

O número crescente de informações eletrônicas, fontes acessíveis a uma audiência mundial, fornece uma oportunidade sem precedentes para estudar os mecanismos e as aplicações de organização e controle de informações sobrepostas em contextos específicos. Tais aplicações devem permitir explorar e organizar documentos digitais espalhados, mas cujo valor está na coleção das fontes que estão em uma disposição de camadas sobrepostas.


Bundles in Captivity: An Application of Superimposed Information
Lois Delcambre e outros
http://web.cecs.pdx.edu/~lmd/papers/captivebundles.pdf

Segunda-feira, Janeiro 11, 2010

O espaço da memória


Quando falo do estoque de informação, o acervo armazenado, penso que é um dos artefatos com que operam os agregados de saber. Estes estoques estáticos não geram conhecimento. Existe como possibilidade, como potência de uma condição de conhecimento. Só a passagem adequada atinge o receptor.

Para haver conhecimento é necessária uma transferência de informação para a realidade dos receptores e uma conjuntura favorável para apropriação pelos indivíduos. Nesse momento nada é mais subjetivo, privado e individual que a assimilação de um conteúdo pelo receptor. Na solidão desta interiorização o receptor é uno e esta é uma a apropriação dele, de mais ninguém.

Conhecimento sendo uma passagem um fluxo de estruturas simbólicas é um processo que se realiza no oculto espaço da subjetividade. É uma celebração individual que se passa em dois mundos: o do criador da mensagem e de quem a aceita como conhecimento porque pode.

O sistema tradicional de armazenamento da informação em estoques obedece a um rígido formalismo técnico e reducionista, que serve aos propósitos do seu gerenciamento. São sucessivos processos de seleção e reformatação de conteúdos simbólicos que sob o pretexto de melhorar localização e recuperação interferem com o sistema de significação e com o universo semântico dos receptores.

A partir dos anos 80 novos modelos tecnológicos promovem um reposicionamento destas práticas de seleção redutora, principalmente devido a: uma nova visão conceitual de que a informação se relaciona com o conhecimento e com o desenvolvimento humano devendo se respeitar, portanto, a integridade de sua inteirice. Ao afetar esta integridade podemos afetar o processo de conhecimento como um todo.

A visão conceitual entende que os estoques de informação representam um importante recurso no processo de geração do conhecimento, mas que por si só não o operam. A geração do conhecimento é uma condição complexa na qual os estoques estáticos representam apenas uma etapa. O problema é que estoques instrumentos do saber, com ou sem controle, crescem indefinidamente, mesmo os de artefatos simbólicos.

Deus que é oniproporcional existe em condições iguais no elefante e na pulga, mas estoques de informação se avolumam e se acumulam em um tempo sem limites; sua abundância degenera a potencialidade dos conteúdos para recuperação e distribuição. Decididamente haveria melhor condição de guardar documentos no elefante que na pulga.

Estoques de informação se agrupam exponencialmente, em estruturas que lhe servem de repositório. A sintonia do sujeito consciente se dispersa em um quantum de mensagens irrelevantes, imprecisas e ultrapassadas. A coisa toda irá ruir em pedaços, devido ao seu próprio peso a menos que se modifiquem as proporções relativas da estrutura dos estoques em relação ao volume de seu conteúdo físico ou se modifique a constituição desta fisicidade.

Não estamos falando dos estoques biológicos de memória, do "imenso palácio da memória. Ali tenho às minhas ordens o céu, a terra, o mar com todas as sensações que neles pude perceber com exceção das que já me esqueci" (Agostinho, cap.8, Confissões).

Nossa memória biológica só funciona bem, porque nos é dada a capacidade do esquecimento. Um descarte natural no armazenamento. Na memória digital dos documentos eletrônicos parece haver, também, um descarte natural associado ao acesso. Se não acessado um documento é descartado ou vai para um museu digital. Esta é uma peregrinação já trabalhada pelos que procuram fazer o árduo serviço de preservação digital. Toda informação arquivada e de domicílio seguro pode ser retirada da memória pelo deslembramento. O digital quando salvado em uma memória de secundária pode ser esquecido e iniciar a sua relação com a história.

No mundo dos documentos pulgas tem que se transformar em elefantes por um processo de diferenciação estrutural, mediante a qual toda organização se distorce para virar um outro acumulado, sem perturbar a qualidade dos seus guardados.

Nos ritos de informação é a memória, tanto física quanto biológica, que possibilita a relação como saber É o conjunto de atos contínuos, que se acumulam no tempo e podem ser relembrados; cognições prévias pelo qual o indivíduo pode reelaborar o seu mundo modificando o seu espaço com o passar do tempo. Assim opera a densidade estoque de informação armazenada, a massa e o volume que ocupam, tem condições agregativas e aderentes enquanto disponibilizadas pelo uso

Esta densidade quando humanizado é o que faz ser, completamente diferente a qualidade do pensar de um homem mais antigo e de uma criança. Haveria sim, nestes casos mais memória no elefante que na pulga.

Quinta-feira, Dezembro 17, 2009

O passar do tempo


O tempo esta passando tão depressa que parece até que o tempo tem cada vez menos tempo para passar. Este foi um mote para publicitar uma Cia. de Seguros anos atrás, mas serve para exemplificar a velocidade com que sentimos o passar do tempo nesta contemporaneidade.

A velocidade nas nossas transações correntes trazida pela internet, principalmente após a socialização da web em 1995 é certamente uma das razões para isso. A informação que, antigamente, pautava nossa vida vinha no compasso do navio ou do cavalo. O Brasil é um país de informação tardia pela sua condição de colônia. O deslocar da família real portuguesa de Lisboa para o Brasil em 1808 trouxe como apêndice a Imprensa Regia viajando em navio da frota de nome "Medusa" aquela senhora que tem cobras na cabeça. Dizem as línguas mais afiadas esta é a razão dos dotados com o escrever terem aversão a espelhos e pedras.

Na vagarosidade de 1808, o jornalista Hipólito José da Costa imprimia na Inglaterra o Jornal "Correio Brasiliense" e cada edição despachada de navio para o Brasil chegava com as últimas notícias três meses após a impressão e saída da Europa. Eram conteúdos tardios, pois, ao chegar outras já eram as temáticas do momento. No Brasil do início do século passado a informação chegava às grandes fazendas e depois era ia se adentrando ao interior no lombo de cavalos e burros.

Paul Virilio fala de velocidade da informação comparando-a com a evolução dos motores. O seu último motor e o mais veloz é o motor informático, da velocidade do tempo online, o tempo no entorno de zero. É o motor que coloca o homem em uma realidade do agir digital. A informação online modifica toda a afinidade com o real e permite vivenciar uma realidade potencial: da convivência sem presença física. Consente, também, uma velocidade que interatua em todas as condições de uma nova relação da informação, as trocas e o mercado.


Tudo isso nos traz a impressão de o tempo estar passando mais depressa que usava passar. Então, o físico alemão, W.O.Schumann constatou em 1952 que a Terra é cercada por um campo eletromagnético poderoso que se forma entre o solo e a parte inferior da ionosfera, cerca de 100 km acima de nós. Esse campo possui uma ressonância mais ou menos constante, da ordem de 7,83 pulsações por segundo. Funciona como uma espécie de marca-passo, responsável pelo equilíbrio da biosfera, condição comum de todas as formas de vida.

Por milhares de anos as batidas do coração da Terra tinham essa freqüência e a vida se desenrolava em relativo equilíbrio. Ocorre que a partir de anos 1980, e de forma mais acentuada a partir de 1990 com a Internet, a freqüência passou de 7,83 para 11 e para 13 hertz por segundo. E o passar do dia poderia ter então 16 horas ao contrario das 24 habituais. Era o que teorizava a sua Ressonância Schumann. Apesar disso os relógios atômicos continuam a marcar vinte e quatro horas para cada dia e os cientistas não endossam com vigor os achados da ressonância em suas condições práticas.

A sensação de um tempo indo mais rápido, contudo existe, e pode ser atribuída a uma forte indução ao consumo feito pelos meios massivos de comunicação que procuram pautar nosso cotidiano no futuro para seu próprio benefício de vendas. Quanto mais vende o comércio mais encomendas têm a indústria e todos têm mais dinheiro para atribuir às verbas publicitárias dos meios de comunicação. Na agenda do consumo programado vivemos sempre no futuro.

Assim, por um interesse mútuo dos meios, anúncios, consumo somos incentivados a viver sempre além do presente. Em outubro somos jogados para viver dezembro num jingobels de compras natalinas, em janeiro ante vivemos a alegria do carnaval de fevereiro; em março os chocolates da páscoa mais além, depois o dia das mães em maio, dos namorados em junho, dos pais em agosto, das crianças em outubro e já esta na hora de agendar o futuro natal de novo. Apressamos a chegada do futuro embora o tempo e as ressonâncias nada tenham a ver com isso.

Para os que não têm esta opção de consumo exacerbado, a parte mais desprovida da população, o tempo passa inexoravelmente a cada hora na aflição de um dia de 24 horas.


http://es.wikipedia.org/wiki/Resonancia_Schumann

Domingo, Dezembro 06, 2009

O DESCOMPASSO ENTRE A MENTE E O CORPO


John Desmond Bernal foi um dos mais eminentes cientistas da sua geração e uma importante figura política - o principal porta-voz de uma ciência para todos, em sua época, no Reino Unido. Um fato até então pouco explorado da sua carreira foi o seu interesse na informação em ciência. Os arquivos de Bernal em Cambridge mostram a sua participação no desenvolvimento da área de informação, sua organização e sua documentação. Foi figura de proa para estabelecer um Instituto de Informação Científica no Reino Unido e participou na fundação do grupo que liderou com Jason Farradane a introdução da ciência da informação como uma nova disciplina em 1948. Nesta data foi realizada em Londres a Royal Society Scientific Information Conference, marco da criação da nova área, quando cientistas de todo o mundo e de quase todos os campos foram a Londres com propostas para resolver os problemas de acesso e organização da informação.

Bernal escreveu em 1929 um longo texto: The World, the Flesh & the Devil, “uma investigação sobre os três inimigos da alma racional” é o subtítulo do documento que espanta os tais inimigos clamando a ladainha de Santo Antonio Eremita: “das ilusões do mundo, da carne e do demônio”, dizia o santo eremita e a congregação respondia “livrai-nos, Senhor.”

O físico Bernal introduzia com ser artigo, do começo do século passado, uma reflexão que será constante neste novo século: como harmonizar uma mente cada vez mais forte, iluminada e criativa com a fragilidade de um corpo que se esvai com o passar dos anos. A mente, pelas facilidades contemporâneas, está ampliada em sua agudeza e nas formas perceptivas de lidar com a visualização do mundo. O corpo apesar da ajuda das próteses supervenientes é biologicamente o mesmo.

É uma ilusão estar do mundo não se aperceber deste descompasso do viver com um corpo antigo e usado, mas com uma mente nova e cada vez mais fulgurante. Assim, procurando um refúgio corporal forte Mary Shelley em 1816, com sua escrita, utilizou de um físico forte e assustador, para lidar com o preconceito. A sua história do doutor Victor Frankenstein serviu para defendê-la do preconceito e da exclusão das mulheres em sua época. Ela fala na voz do outro corpo: "Terei de respeitar o homem quando ele me despreza?" "Por toda parte vejo felicidade da qual estou irremediavelmente excluído".

Também no mito de Prometeu o temos o Titã corporalmente preso a um Monte, castigado pela sua ingerência em gerar um novo ser pensante. Conta a lenda que o Céu e Terra já estavam criados quando Prometeu chegou à terra. Com argila e água fez o homem à semelhança dos deuses. Tirou das almas dos animais características boas e más animando a criatura. Atena, deusa da sabedoria, insuflou na argila o espírito com sopro divino. Mas toda esta feitura irritou Zeus que prendeu Prometeu ao monte Cáucaso. Ao ser libertado, tendo que cumprir sua sorte passou a usar um anel com uma pedra retirada do Monte. Seu corpo estava para sempre preso àquela montanha. Mas o seu conhecimento estava livre.

A natureza humana vem representando esta prisão do corpo em contraposição a liberdade da mente há muito tempo; uma desarmonia que demonstra que o homem preso a seu físico temporal não poderá imiscuir-se em todos os âmbitos como o seu poderoso e adaptável pensamento.

O padre Teilhard de Chardin escreve em 1950 que a evolução da humanidade caminhava para um aumento inevitável de complexidade e sensibilidade da mente humana. A sua noosfera pode ser vista como a esfera do pensamento humano e seria a terceira etapa no desenvolvimento da Terra vindo depois da biosfera que seria o contexto da vida biológica.

Segundo ele existe, a atmosfera, a geosfera e biosfera e depois um mundo ou esfera das idéias formadas por produtos culturais, pelo espírito, linguagens, teorias e conhecimentos. A noosfera esquece a condição de envelhecimento biológico ao se aproximar da idéia de ciberespaço, um espaço que prescinde da presença física estar corporalmente inserida para realizar os atos convivenciais. No ciberespaço para constituir as obras e feitos de interação é dada ênfase na ação da imaginação, a criação de imagens em comunhão com os demais conviventes. Neste espaço privilegiado entra-se com a mente e as idéias deixando o corpo do lado de fora da interface.

A crescente complexidade da existência do homem e sua capacidade mental tornam necessário lidar, também, com as complicações mecânicas de uma complexa organização sensorial e motor. Para as partes de um corpo vivido estão sendo dadas funções cada vez mais modernas independente de sua condição de uso permanecer a mesma.

A mente humana deveria evoluir na companhia do corpo humano. Mas este descompasso tem aumentado com o acesso e distribuição do conhecimento. Estas ligações intrincadas entre mente e corpo indicam que os atributos fisiológicos levarão a conseqüências psicológicas molestando o todo do organismo. É por conta desse delicado equilíbrio entre os fatores orgânicos e as articulações do pensamento que o futuro vai estar cheio de pontos perigosos e armadilhas de percurso.

Um problema quase escondido são os impulsos da sensualidade exacerbados por todas as mídias sugerindo um corpo aprimorado como forma de encantar relações o que nem sempre é possível. A solução pode ser a sublimação como processo consciente desviando a energia para novos objetivos de caráter útil, mas este controle quando contínuo poderá causar dano às condições intelectuais do corpo.

Uma parte desta sensualidade reprimida poderia levar à criação de artefatos estéticos para uma realização pela arte. Arte aqui entendida em seu sentido mais amplo, como a capacidade que tem o ser humano de colocar em prática uma idéia valendo-se da faculdade de dominar fisicamente a matéria. Supõe, para isso, a criações carregadas de vivência pessoal e com a propriedade de realizar formas sensíveis, por efeito de uma ação exterior e com profunda realização sensorial. Poderia assim ser atenuada a impulsividade reprimida de um invólucro que não responda mais a poderosos anseios do imaginário.

Algum tipo de equilíbrio terá de ser encontrado entre as idéia e seu relacionamento corporal. Qual será o futuro do sentimento no homem, por exemplo? Será mais emocional ou mais racional em um mundo cada vez mais mecanizado nas relações de convivência privada e trabalho corporativo. No trabalho o indivíduo racional tem de satisfazer condições de vigor para manter o equilíbrio com a objetividade motora de seu grupo profissional; só isto lhe permite continuar ali e barganhar seu esforço em um mundo de trocas.

Como a emoção irá atuar neste descompasso. O sentimento emocional estará sob o domínio de um estado de vigilia constante e consciente? Uma parca vivência será a de seres humanos em estado de supervisão permanente de seus sentimentos para poder permanecer na convivência incorpórea das redes de coexistência digital.

O comportamento do organismo mecanizado mesmo com suas próteses facilitadoras será um mistério a ser revelado no futuro. A medida que aumenta o saber acumulado o corpo tenderá a querer ousar, porque sabendo mais irá querer ousar mais e em tal ousando exporá a sua fragilidade de invólucro ao risco de destruição. Mas que fazer se essa ousadia, se essa experimentação é uma essencialidade na sua vida ativa.

Realizar o imaginário em seus todos os seus aspectos é uma vocação da mente, mas também é um anseio do corpo e a bifurcação destes caminhos gera conflitos impensáveis. Viver com um corpo 1.0 e uma mente 2.0 é uma armadilha engatilhada.

Até que se tragam novas diretrizes para esta coabitação, entre mente e corpo, o segredo será cada um morar em seu mundo, mas contando com a perspicácia do saber em encontrar a harmonia necessária ao desejo do corpo em integrar o todo do universo.

Aldo de A Barreto

- Johann Goethe escreveu um pequeno poema de 8 estrofes sobre a lenda de Prometeu, que no caso se reporta a Zeus:

"Por acaso imaginaste, num delírio,
que eu iria odiar a vida e retirar-me para o ermo,
por alguns dos meus sonhos se haverem frustrado?
Pois não: aqui me tens
e homens farei segundo minha própria imagem:
homens que logo serão meus iguais
que irão padecer e chorar, gozar e sofrer
e, mesmo que forem parias,
não se renderão a ti como eu fiz"


- John Desmond Bernal escreveu The World, the Flesh & the Devil em 1929 http://www.santafe.edu/~shalizi/Bernal/

- O Lugar do Homem na Natureza, de Pierre Teilhard de Chardin é de 1997, editado pelo Instituto Piaget

Sábado, Novembro 28, 2009

Luzes que se apagam e nada mais



Vidas que se acabam a sorrir
Luzes que se apagam, nada mais
e o que se foi não voltará jamais...



A diferença entre falar e escrever é que a percepção do significado das palavras ouvidas é diferente de sua visualização na impressão em conjunto. O som não é apenas ouvido, mas também sentido por meio da pele que ajuda na compreensão de seu significado. Apesar disso um sistema de escrita é muito mais complexo do que o idioma falado, pois representa um conjunto de signos convencionados que concedem a possibilidade daquela escrita.

Um sistema de escrita, ou simplesmente uma escrita, é um tipo de comunicação por símbolos chamados de caracteres ou grafemas, usados para registrar visualmente uma língua falada, com finalidades múltiplas, inclusive a de comunicação; a escrita permite registrar mensagens para recuperação futura e admite a formação de uma memória domiciliada. Nesse sentido a escrita é a representação gráfica e convencionada do idioma. É a interface da linguagem. Tanto o idioma como a escrita são mutáveis, mas em dias de trocas estruturais intensas no linguagear da Internet o sistema da escrita pode ter diferentes representações e convenções que não se conectam mais ao todo da base fixa.

Os habitantes de uma nação estabelecem sua comunicação por meio de sua língua. Toda comunidade só existe com um idioma, que atualmente somam cerca de quase sete mil línguas articuladas. As mais faladas sendo: hindu, espanhol, inglês, árabe, português. bengali, russo e japonês. São idiomas falados por mais de cem milhões de pessoas.

Já os sistemas de escrita vigentes são cerca de 400 e destes 127 são de raiz latina. As outras escritas são de raiz cirílica, árabe, indiana, chinesa, japonesa grega e mais outras 25 origens.

Uma forma devastadora de violência é a que se pratica passivamente ao não se preservar os idiomas e as escritas ao se aceitar uma monogamia cultural. Despir as minorias da sua própria identidade falante é promover o seu desaparecimento. A UNESCO elaborou um livro das línguas ameaçadas, reflexo da crescente preocupação que o problema está despertando. Os linguistas acreditam que das 6800 línguas vivas podem desaparecer entre 3400 e 6100, antes de 2100, o que supera a estatística de uma língua extinta a cada duas semanas. A melhor forma de referir esta realidade não é dizendo que as línguas foram assassinadas. Seis mil idiomas acabados fecharão também muitas escritas.

Das mais de três mil línguas indígenas que existiam Brasil na época dos colonizadores, a metade na regiões amazônicas hoje restam cerca de 150 línguas indígenas na região. A condição oral e escrita de uma língua é essencial para classificar e relacionar a informação em uma dada cultura, assim como, determinar a maneira de como seus habitantes percebem o mundo e interagem com ele.

Ao se encerrar uma língua perde-se para sempre o saber, os hábitos, o conhecimento de uma cultura. Apagam as condições espirituais, os processos e instrumentos de uma nação; as lendas e mitos de um povo; toda a sabedoria que esta nação teria guardado sobre a natureza e sua interação com ela. Fecha-se uma porta sem abrir qualquer janela. Estas são luzes que se apagam para sempre e jamais renascerão.

O relato de casos peculiares de fechamento de uma língua indígena, vale contar:

O tempo era a meados do século XVI e por volta de 1554 no Brasil das Capitanias, quando surgiu um desentendimento entre Álvaro da Costa, o filho do governador Geral e Dom Pero Sardinha o bispo designado pela Coroa. O bispo criticou publicamente o comportamento livre do jovem, bem como a omissão de seu pai Duarte da Costa, o governador geral.

Apesar de o bispo ter grande influência por ter sido colega de São Inácio de Loyola e professor de teologia nas Universidades de Paris e Salamanca o poder político falou mais forte. Dom João III, em Portugal, ao saber do problema, chamou o bispo de volta para se explicar. Dom Sardinha reuniu, então, um grupo devoto para levar a ver o Rei, explicar os acontecimentos, e pedir para acabar com os pecados permitidos do lado de cá do Equador. Mas Portugal sabia bem o que acontecia por aqui e achava que a linha que divide os hemisférios separasse também a virtude do vício.

Todavia, para felicidade de Duarte da Costa de seu filho e do pecado o navio em que o bispo Sardinha se encontrava naufragou no litoral de Alagoas, sendo o bispo e todos seus acompanhantes devorados pelos índios Caetés. Era 16 de junho de 1556.

Os comensais do bispo viviam numa população de 75 mil índios desde a ilha de Itamaracá até as margens do rio São Francisco. Habitavam o seu país com sua língua, seus ritos e cultura.

Depois de “consumir” o bispo os índios foram considerados "inimigos da civilização" por uma Carta Régia de 1537 que consagrava a ordem para sua escravização. Em 1562, Mem de Sá, o novo governador, determinou que os índios da nação fossem aprisionados sem exceção. E a nação Caeté foi extinta. Apagaram toda uma cultura em nome da civilização.

Outra caso nos chega através de Friedrich Alexander von Humboldt, naturalista alemão, explorador, filosofo e lingüista. Em 1804, o explorador Humboldt voltou de sua expedição de cinco anos a América Central e do Sul, trazendo consigo uma transcrição de 40 palavras ditas por um papagaio que se acreditava ser o último falante de uma língua extinta.

Sua expedição foi na região do rio Orenoco, na Amazônia venezuelana, em região perto dos índios Atures inimigos dos índios Maipures “Nada pode ser mais grandioso que esta região. Uma terra de fábulas, de visões e de fadas”, escreveu o explorador.

Apesar disso, em determinado momento da viagem, chegaram à aldeia dos índios Atures e descobriram que ela havia sido incendiada até os seus alicerces pelos agressivos Maipures; os restos dos Atures já começavam a ser cobertos pela mata da selva. Buscaram e buscaram, mas não havia sobrevivente algum.

Só encontraram, conta a história, um aturdido papagaio de cores brilhantes que vivia entre as ruínas e repetia uma e outra vez longos discursos numa língua incompreensível. Era a língua dos Atures, mas não restava mais ninguém que a entendesse.

O silencio do conhecimento é o silêncio da informação escondida que pode ser uma terrível desarmonia entre uma linguagem e as suas escritas. Um silêncio da linguagem diante dos ruídos de uma escrita que se reinventa multiplicada nos formatos e nos diferentes contornos de convivência escrita e falada.

Aldo de A Barreto



Language statistics & facts
http://www.vistawide.com/languages/language_statistics.htm

A nova forma de violência
http://mc.jurispro.net/contrato.htm

Sistemas de linguagem do mundo
http://www.omniglot.com/writing/definition.htm

De volta ao Orinoco, seguindo von Humboldt
http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=14&id=132

Domingo, Novembro 22, 2009

OS QUATRO MOMENTOS DE UM PROCESSO DE INOVAÇÃO





O tema inovação tem tido vasto uso, pois traz a projetos, conferências e textos a sedução do novo, coisa apreciada em tempos em que os originais são poucos e muito são as cópias.

Ao falar de inovação seria conveniente lembrar que esta palavra traz um sentido de ação em um processo completo que vai do surgimento de um fato ou idéia até a aceitação deste por uma comunidade. Este grupo de pessoas é que vai decidir se aceita ou rejeita uma coisa nova que pode estar substituindo um similar já existente. Ao aceitar o novo existe uma crença compartilhada de que isto trará um acréscimo ao bem estar de todos. O processo em si tem quatro etapas principais.

Ao momento inicial chamamos de antecedentes contextuais remotos. Podem representar um conhecimento que foi sendo formado no tempo para se transformar em inovação. Um mecanismo forjado para servir aqui, mas que se completou para distinta intenção e seguiu outro caminho. As conjunções remotas moldam o mundo já vivido com a perspectiva da sociedade quando em situações concretas de vida.

O segundo momento no processo de inovação seriam as configurações contextuais imediatas, coisas como: infraestrutura educacional, estrutura de pesquisa e desenvolvimento instituída, estrutura existente para engenheirar coisas, um sistema de informação operacional e uma vontade política que coincida com a vontade econômica.

O terceiro momento seria o de assimilação do conhecimento novo pelos habitantes de um determinado espaço. O quarto momento, o mais importante, é o momento de decisão: aceitação ou rejeição. Quando da aceitação é, também, o momento de adoção da inovação.

Houve uma aquisição de conhecimento e um julgamento de valor nos momentos anteriores. A adoção encaminha a implantação e o uso da inovação; uma aceitação para adoção implica na criação de conhecimento que permite reinovar o novo adaptando-o a condições contextuais harmoniosas.

É necessário lembrar que inovação não é sinônimo de nova tecnologia. A nova tecnologia representa uma sucessão de novos eventos coesos e em conjunção com técnicas e processos com uma intenção de transformação. Quando comparada a inovação é uma configuração estática. Já a inovação é a aceitação com assimilação de conhecimento e ações de implantação da tecnologia pelos habitantes de um determinado espaço social. Mostra uma condição dinâmica.

Neste quadro é a informação livre que melhora o homem e sua realidade. Se a introdução da novidade não abrange um espaço, por qualquer razão, que não seja o livre arbítrio de seus habitantes, ela não acontece. De nada adianta uma luz se ela não brilha ali. Só em convivência se decide e aceita a introdução da novidade.

Disponibilizar o acesso á informação para um conhecimento em rede disponível para todos têm sido o sonho de grande número de pessoas e seus instrumentos. Da prisão dos conteúdos nos muros medievais dos mosteiros copistas até realidade da web muitas pessoas e mecanismos se agregaram para este fim. A intenção de rede vem de muito longe e foi por vezes governada pelo imponderável.

Assim, Francis Bacon em 1579 intuiu que as inovações trazidas para a criptografia dos conteúdos seria o futuro das máquinas inteligentes do século XX. Em seus escritos a palavra informação expressava “intelligence”. Ele propôs a formação de times de cientistas, os doze “Mercadores da Luz” com a missão de percorrer o mundo a procura de livros de resumo em ciência e tecnologia e modelo de protótipos. As inovações propostas por Bacon se materializaram, em parte, em 1662 com a ajuda da Royal Society de Londres, com fomento dos comerciantes locais.

Gottfried Leibnitz expondo em 1703 o mecanismo de redução dos números reais a 0 e 1 propõe uma máquina de calcular que reunia as características essenciais do calculo binário, o fundamento da atual arquitetura computacional, mas a máquina não foi adotada. As condições econômicas e as tecnologias estabelecidas a rejeitaram. A mão-de-obra envolvida em sua construção seria maior que o trabalho economizado com sua utilização e manutenção. Naquele momento complexidade e incerteza eram palavras sinônimas


Em 1819, Charles Babbage usando os conceitos de divisão do trabalho de Adam Smith (1776) constrói o protótipo que possibilitará uma inovação para troca de informação em rede que desembocaria mais tarde na web de Timothy Bernes-Lee em 1991. Cerca de 500 anos em que uma inovação foi se construindo com diferentes intenções. O objetivo de Babbage era ajudar as grandes companhias de seguro em seus cálculos atuariais para um melhor faturamento. Na sua distribuição a informação contou primeiro com a agilização criada pelo telégrafo elétrico em 1837 cuja intenção inicial ao distribuir a informação era servir ao aparato de guerra

O monge agostiniano Gregor Mendell em 1865 formula e apresenta as suas idéias em dois encontros da Sociedade de História Natural de Brno, na atual República Checa, eram as suas leis da genética, que regem a transmissão dos caracteres hereditários. As suas descobertas permaneceram praticamente ignoradas até o início do século XX quando foram citadas e publicadas.

Estas leis da genética que possibilitaram a compreensão e análise do DNA, por motivos imponderáveis, ficaram ocultas atrasando talvez em quase cinquenta anos o tratamento e a cura de tantas aflições. Esta barreira à inovação foi, também, um problema de organização da informação e tão forte foi esta sensação em Vannevar Bush que este quis elaborar uma máquina para lidar com o controle dos documentos. A máquina Memex nunca foi produzida, mas o seu famoso artigo escrito em 1945 deu início a uma nova ciência para a informação. Uma ciência que viria a estudar as tecnologias e as redes de distribuição do saber. Um encadeamento novelístico de séculos para gerar a grande inovação.

O processo de inovação agrega para a sua efetivação diversas intenções. De todas a mais admirável é melhoria do status do homem e seu contexto. E tudo isso acontece, pois nada envelhece mais rápido que o novo.


Referências:

História da sociedade da informação, Armand Mattelart, Loyola, 2006

Francis Bcon
http://en.wikipedia.org/wiki/New_Atlantis

Gottfried Leibniz
http://en.wikipedia.org/wiki/Gottfried_Leibniz#Information_technology

Charles Babbage
http://tinyurl.com/yj8rmkb

Timothy "Tim" Berners-Lee
http://es.wikipedia.org/wiki/Tim_Berners-Lee

O início do telegrafo elétrico
http://tinyurl.com/yj8rmkb

Gregor Mendell
http://es.wikipedia.org/wiki/Gregor_Mendel

Vannevar Bush
http://es.wikipedia.org/wiki/Vannevar_Bush

As We May Think (o efeito Mendel/Bush)
http://www.theatlantic.com/doc/194507/bush

Sábado, Novembro 07, 2009

As propostas para um milênio que já começou


Seis propostas para o próximo milênio o último livro de Ítalo Calvino resultou de uma serie de seis aulas, um ciclo de seis conferências que foi realizada durante o ano acadêmico de 1985/86 na Universidade de Harvard nos Estados Unidos. Nelas o autor apresenta propostas para a qualidade e fluidez da escrita no futuro. Quando partiu para as palestras nos EUA Calvino já tinha cinco conferências preparadas. As suas propostas indicam o pensar de uma nova narrativa textual que deveria ser: leve, rápida, exata, visível e múltipla; O escritor morreu em Setembro de 1985 e não escreveu a sexta proposta que seria a consistência.

Pensando nas propostas somos levados, inicialmente, ao texto de Paul Valéry que dizia que uma narrativa deveria ter leveza do pensamento e ser leve como um pássaro, mas não como a pluma. Avoante como Mercurio o mensageiro dos deuses. A escrita flui fácil, mas não é vaga ou aleatória. A rapidez fala da necessidade de uma trama sem os excessos de detalhismos e de divagação que protelam a conclusão. A precisão evoca a necessidade de usar imagens nítidas na composição do texto, deixando para a interpretação do leitor as viagens do imaginário.

A visibilidade fornece a composição visiva do espaço em que se processa a história; uma “mis-em-scéne” do lugar físico para os olhos da imaginação. A multiplicidade deve permitir ao leitor sua interferência na apreensão do significado pelo o emaranhado de suas muitas cognições prévias.

A última proposta que seria a consistência não consta do livro de Calvino. Segundo sua mulher e editora a consistência e trazia referências ao livro “Bartebly, o Escrivão” de Herman Melville. O tal escrivão cartorial por ofício, que certo dia nada mais escreveu e para sempre. Talvez a sua decisão tenha sido influenciada pela inconsistência de sua escritura, de tipo altamente fomatado, sem encadeamento e sem uma sequência adequada para uma apreensão da realidade sonhada. Talvez Calvino quisesse falar sobre o excesso de consistencia que um formato rígido demanda.

Uma preocupação percorre todo o texto do autor no destaque colocado em duas imagens para simbolizar a geração da informação e a sua absorção no espaço dos receptores. O cristal facetado e exato em sua capacidade de refratar a luz é a representação da invariância e da regularidade das escrituras modeladas do texto. Uma imagem que se adapta à narrativa estruturada, onde a ciência da informação tem se inspirado na sua ideologia de centralidade e arranjo homogêneo dos conteúdos juntados em nome da ordem e do controle.

Contudo,ao ser refletida em múltiplas direções a narrativa cristalizada se altera para ser chama que é a imagem da inconstância e da indefinição associada a cada percepção na sua incessante agitação, manipulando sensibilidades no estoques da consciência ao apreender a informação que quer ser conhecimento.

O cristal é a invariância do formato linear que vai de signo a signo como um folhetim que quer se contar ancorado a uma forma única. Calvino não pode viver a época dos formatos digitais abertos, mas as suas propostas para mudar traços lineares estão adequadas as partículas entrelaçadas que viajam em ondas de pensamento e do hipertexto.

A metáfora do cristal e da chama ilustra os ritos dos fluxos das mensagens no tempo anterior ao conhecimento. A informação tem que deixar a beleza do cristal, o tesouro da forma, para consumir-se na individualidade da chama de cada um. A interiorização acontece em uma realidade multifacetada e formada por micronações diferenciadas e isoladas por sua singularidade.

Os habitantes destas comunidades sociais tem condições alteradas de: instrução, renda, interpretação dos códigos formais, tipo de acesso à informação e aos diferentes canais de transferência. Os espaços sociais diferenciados não constituem uma simples justaposição de singularidades, ao contrário são espaços com forte sentimento coletivo, um corpo de costumes, tradições, sentimentos e atitudes. Concentram um conjunto de saberes, regras, normas, proibições e permissões que são conservadas e transferidas através de sensações próprias.

A comunicação eletrônica veio, definitivamente, libertar o texto e o seu conteúdo da ideologia dominada pelo formato. O instrumental tecnológico que possibilita esta nova interação é restritivo em termos econômicos e de aprendizado socialmente exclusivo. Contudo, isto não vai anular as condições que colocam a escrita digital como uma nova e mais eficiente maneira de se publicitar a mensagem de forma mais livre e economicamente mais viável de se conseguir, em curto tempo, maior inclusão social para lidar com os significados.

Aldo Barreto
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Fonte: Grande parte deste texto foi baseada no livro “Seis propostas para o próximo milênio”, São Paulo, Cia. da Letras, 1990 de Ítalo Calvino. Em dezembro 1999, há dez anos, publicamos Os Destinos da Ciência da Informação: entre o cristal e a chama artigo que moveu esta mensagem,contudo o artigo tem maior amplitude temática e que está em:
http://aldoibct.bighost.com.br/cristalChama.pdf

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

A solidão social e a solidão fundamental



Um propósito da ciência da informação é o de conhecer e fazer acontecer o sutil fenômeno de percepção da informação pela consciência; percepção que, conduz ao conhecimento da coisa percebida.

A essência do fenômeno da informação é a sua intencionalidade. Uma mensagem de informação é direcionada, arbitrária e contingente para atingir o seu destino; cria tensão ao passar do mundo do gerador ao mundo do receptor, o lugar do conhecimento.

Nos momentos de passagem a essência da informação tem uma particularidade de solidão fundamental que existe em todo ser humano pensante, o que acontece quando um pensamento criador se faz informação e esta informação se torna conhecimento para o receptor. Isto provoca uma nova relação do homem com o seu ambiente e com sua vida em relação aos outros. Esta solidão radical está inserida na privacidade desejável para cada ser humano. A solidão é fundamental pelo momento de quietude que exige para criar ou assimilar a informação, mas não se relaciona com a solidão social, que é estar só, afastado e desligado da mundanidade do mundo.

Toda enunciação, mesmo quando na forma imobilizada pela escrita é uma resposta a alguma coisa. Um elo da cadeia dos atos de fala. Todo dialogo na solidão prolonga aqueles que o precederam e trava um debate privado. É uma conversação com enunciação monológica pela privacidade requerida e é produzida para ser compreendida e orientada no contexto da vida ou da realidade daquele indivíduo.

Em um processo de comunicação, a transferência de uma mensagem, é um fato bastante acessível ao entendimento. Os eventos são claros: as pessoas falam e escrevem se comunicam entre si. Todo ato de conhecimento está associado ao conteúdo significante de uma estrutura de informação e representa uma cerimônia com ritos próprios; uma passagem simbolicamente mediada por uma condição desta solidão vital.

Para o lingüista a comunicação é uma cadeia de eventos quase evidente. Mas para a investigação existencial é um enigma e até mesmo um milagre. O estar junto, como condição existencial ultrapassa essa condição da solidão fundamental, um isolamento expereinciado e necessário para uma pessoa no processo de produzir ou interiorizar uma experiência vivenciada em um ato privado. Este estar só nada tem a ver com a instância do diálogo social. O dialogo é um evento posterior que liga locutor e ouvinte. [1]

Mas o comportamento na solidão basal que pode levar ao conhecimento requer uma condição de solidão social para existir a reflexão. Uma possibilidade de se estar sozinho para deixar fluir o pensamento e suas interações de memória e da percepção são necessárias para interiorizar a falação da informação.

Esta condição de estar socialmente só vária em diferentes ambientes culturais, mas no contexto de países latinos do sul é quase proibido ficar sozinho, “somos vigiados por familiares, cujo princípio básico é evitar a solidão social de seus membros. O isolamento ou a individualidade é percebido como sintoma de que algo não está bem, algo que pode ser o primeiro sinal de uma alienação”. A “recusa de relacionar-se socialmente pode ser considerada uma anomalia, uma antipatia ou uma anormalidade.” [2 ]

A web social de vivência pela não presença veio ajudar a contornar este mal estar social de uma presença física compartilhada e obrigatória para confirmar uma condição intelectual saudável.

Estamos convivendo na web com um novo padrão de participação social. Estamos vivendo momentos fascinantes ao presenciar uma transformação nos padrões de entendimento entre as pessoas que vai modificar muito a situação ao seu redor. Você pode estar sozinho em um seu espaço de isolamento e individualização, mas conectado ao mundo, tendo ainda preservada a sua condição de solidão fundamental para interiorização de conhecimento.

O contato digital como a magia opera na dimensão das sensações e das percepções do imaginário. A imaginação da coisa e sua representação foram modificadas no ciberespaço para adaptar-se a esta solidão dissimulada. A coisa imaginada dispersou-se em um fluxo continuo de significados desfamiliarizados de signos convencionais. No espaço de solidão conjunta formam-se novas paisagens de um imaginário liberado.

A convivência digital possibilitando acesso a múltiplos espaços de pensamento amplia o imaginário. O receptor afronta a solidão digital adicionado por um terremoto de opções para seu imaginário e daí para conduzir em isolamento o seu caminho de percepção e assimilação.
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[1} Paul Ricoeur – Teoria da Interpretação, Edições 70
[2] Fragmentos do texto de Roberto Da Matta, Ficar sozinho no Brasil, publicado no Caderno Opinião do jornal O Globo de 04/11/2009. Edição impressa