sábado, março 30, 2013

Um abismo geracional separa professores e alunos afetando as relações de admiração e respeito que estimulam o desejo de aprender



Um abismo geracional separa  professores e alunos afetando as relações de admiração e respeito que estimulam o desejo de aprender

             trechos de um artigo de Rosiska Darcy De Oliveira*

Uma mudança de era deu lugar a um abismo geracional que separa professores e alunos, minando as relações de admiração e respeito que, no passado, estimulavam o desejo de aprender. Os professores estão hoje a cavaleiro entre dois tempos; um passado em que conteúdos eram transmitidos de uma forma que hoje chamaríamos tradicional; um presente em que os alunos, digitais nativos habitam, fascinados, o espaço virtual como vida real e são habilíssimos em tecnologias que os professores mal dominam.

A virtualidade é o meio ambiente de uma juventude portadora dessas próteses cerebrais que são os celulares, prolongamentos de seus corpos, onde trazem armazenada — Google dispensando o trabalho da memória — toda a informação do mundo. Fotografam tudo que se passa como que deixando provas tangíveis do que é vivido em tempo real, marcando o instante, sem apelo à abstração da memória, seus caprichos e brumas.

Como tudo é registrado sem esforço, é o próprio esforço que se torna um comportamento raro e desvalorizado, o que representa um perigoso efeito colateral. Entre alunos e professores há distância e estranhamento. Por vezes, agressividade. A pletora de informações que cada um acessa quando tira o celular do bolso não implica que os jovens tenham a mínima ideia do que fazer com elas ou, pior, que saibam a diferença entre informação e conhecimento.

A aquisição de conhecimento depende do desenvolvimento de aptidões mentais e do domínio dos códigos culturais que permitem navegar com alguma coerência em um oceano de informações desgarradas. As informações disponíveis na internet são um tesouro literalmente incomensurável. Problemática é a exígua capacidade de processá-las e lhes dar algum sentido.

Assim como a palavra ganha seu sentido no texto e o texto ganha sentido em um contexto, a informação pede para se inserir em um patrimônio cultural que caberia à escola transmitir. A contextualização é condição da função cognitiva ao mesmo título que a consciência de ter aprendido, tão cara ao grande Jean Piaget. É a transmissão do patrimônio cultural e de valores que dão à juventude o sentido de pertencimento à aventura humana e estabelecem os vínculos de continuidade entre as gerações que se sucedem.

O desafio da educação é a formação de indivíduos aptos a pensar pela própria cabeça, capazes de transformar informações em conhecimentos, abertos à inovação e experimentação, afeitos à argumentação e escolha. O que Edgar Morin chama “uma cabeça bem feita”.  A vida em tempos de internet exige da escola uma metadisciplina, o aprender a aprender. Quem serão os professores dessa escola aberta ao desconhecido, sob forma de pesquisa, e ao inesperado, sob forma de criação?

Não há receita pronta de escola e sim ingredientes a combinar: a aquisição de conteúdos específicos com o aprendizado de competências transversais que permitam aos jovens dar sentido a si mesmos e a um mundo em que terão vida longa e as certezas curta vida."

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora


*Partes do artigo de Rosiska Darcy De Oliveira, Publicado: 30/03/13 no jornal O Globo de 3-/03/2013. Leia mais sobre esse assunto emhttp://oglobo.globo.com/opiniao/uma-escola-sem-receita-7972677#ixzz2P1o0zPFG 

terça-feira, novembro 20, 2012

É preciso reservar sempre um lugar para o efêmero e o imponderável




O homem é um ser disputador. Cada sujeito se define pelas escolhas que vai fazendo ao longo de sua vida. Para seguir os caminhos que vai escolhendo, é obrigado a enfrentar as resistências que sempre aparecem e nenhum objetivo importante é alcançado sem alguma luta, conflito consigo mesmo e com os outros. Somos seres contraditórios, não conseguimos viver sem conquistas e lutas.

Mas temos, ao menos, a possibilidade de decidir, nos limites da situação, quais as batalhas que vamos travar, quando e como as travaremos.  Há batalhas que nos dignificam e outras que nos amesquinham.  E estas serão sempre nossas opções. Às vezes, os conflitos aparecem com tanta força que dão a impressão de não deixar espaço para qualquer escolha. Mas se observarmos esses casos, verificaremos que sempre se pode fazer alguma coisa, pois a condição de tomar iniciativas nunca é anulada.

Ninguém gosta ou quer desistir da sua posição, principalmente, se esteve na preparação da coisa. Nesses momentos a sensibilidade e a razão lutam na consciência para prevalecer. Mas, acho que nas atividades da vida é preciso reservar sempre um lugar para o efêmero, aquilo que existe mais vai desaparecer; e "o imponderável como o exato momento em que a alma está suspensa no vazio entre dois estados, o exato momento em que a flor irá fenecer" (Barthes)

Haverá, sempre, a razão corajosa para resistir a uma realidade que se mostra forte e poderosa, seja por tradição ou formalidade, não porque ela seja melhor, mas porque ela assim o é.  Mas é preciso e saudável ser coerente em sua história de vida e se posicionar contra a razão interna desta realidade.

Aldo Barreto


Obs,:  Usamos nesta reflexão inspiração do artigo de Lendro Konder no Jornal O Globo de  04/02/02,"Queres servir-me" e os conceitos de Ma e Utsoroi como usados por Barthes em "a Prepara do Romance"

Imagem de James Mlaker, fotografo digital e de computação gráfica dos EUA

domingo, outubro 21, 2012

O indice h define um perfil de sua atuação com sua produção científica:veja como calcular seu indice h






O índice h, ou h-index em inglês, é uma proposta para quantificar a produtividade e o impacto de um cientistas baseando-se nos seus artigos (papers) citados. Em outas palavras, o índice h é o número de artigos com citações maiores ou iguais a esse número. Um  exemplos: um pesquisador com índice h = 5 tem 5 artigos que receberam 5 ou mais citações; um com h = 15 tem 15 artigos com 15 ou mais citações; e assim por diante. O indice h é também chamado do fator de impacto de um pesquisador em relação a sua produção científica e já é requerido pelo currículo Lattes em sua nova versão.

Como criar seu perfil de autor, e calcular o fator H usando o Google Academico:

Você pode ter um perfil no Citações do Google Acadêmico. É rápido e gratuito.

Primeiro, crie uma Conta do Google ou faça login em uma Conta do Google já existente. Recomendamos que você use uma conta pessoal, não uma conta de seu empregador, para que você possa manter seu perfil pelo tempo que desejar.

Depois de fazer login em sua Conta do Google, o formulário de inscrição no Citações solicita que você confirme seu nome e insira sua afiliação, seus interesses, etc. Recomendamos que você também insira seu endereço de e-mail da faculdade, pois isso qualifica seu perfil para inclusão nos resultados de pesquisa do Google Acadêmico.

Na página seguinte, você vê grupos de artigos escritos por pessoas com nomes semelhantes ao seu. Clique em "Adicionar todos os artigos", ao lado de cada grupo de artigos escritos por você ou em "Visualizar todos os artigos" para ver artigos específicos do grupo em questão. Se seus artigos não estiverem nesses grupos, clique em "Pesquisar artigos" para fazer uma pesquisa comum no Google Acadêmico com su nome.

Quando você terminar de adicionar os artigos, o sistema perguntará o que fazer quando a data do artigo for alterada no Google Acadêmico. As atualizações podem ser aplicadas a seu perfil automaticamente ou você pode analisá-las antes que sejam exibidas. Em qualquer um dos casos, é possível acessar seu perfil e fazer as alterações manualmente.

Por fim, você verá seu perfil. Nesse momento, você pode aproveitar para fazer alguns ajustes finais, como fazer upload de uma foto em que você tenha uma aparência profissional, visitar a caixa de entrada de seu e-mail da faculdade e clicar no link de verificação, verificar a lista de artigos e, quanto estiver satisfeito, tornar seu perfil público. Pronto! Agora, seu perfil pode ser exibido no Google Acadêmico quando seu nome for pesquisado.

veja o exenplo de uma página de citações em
http://scholar.google.com.br/citations?user=TwXayDgAAAAJ&hl=pt-BR

quarta-feira, julho 20, 2011

A memória nos documentos




A densidade dos ritos de informação corresponde a qualidade do saber acumulado na memória. Representa um conjunto de atos contínuos, que se acrescentam no tempo; obras pelo qual o indivíduo reelabora o seu mundo modificando o seu espaço, uma criação em convivência com o passar do tempo.

Um lugar muito especial para pesquisadores dos acontecimentos do meado do século passado e a Biblioteca do Presidente Roosevelt na presidência dos EUA com documentos digitalizados. Destes documentos cerca de 6.000 são documentos confidenciais que estavam no cofre da Casa Branca e conhecidos como: The safe documents.

Os demais são documentos do chamado Arquivo do Vaticano e Arquivo Diplomático. O Arquivo Diplomático dividido em: German Diplomatic Files e British Diplomatic Files, referentes as relações diplomáticas durante a guerra. Os registros podem ser consultados em sua forma original e em uma versão texto. Existem ainda disponíveis fotos da era Roosevelt livre de copyright.

Um aspecto interessante e que pode ser examinado é a sua extensa correspondência do presidente com o Dr. Vannevar Bush de 1938 a 1942. Dr. Bush foi o responsável pelo Comitê Nacional de Pesquisa que agregou cerca de 6.000 cientistas americanos e europeus para direciona-los para o esforço da guerra. Em 1950 Bush, devido a esta experiência, escreveu "As we may Think" sobre o problema da explosão informação em ciência e tecnologia após o término da guerra. O artigo de 1950 de Vannevar Bush é  um marco da ciência da informação como área de conhecimento.

Ainda no Projeto da memória americana da Library of Congres estão acessíveis os arquivosde Hannah Arendt que em muitas partes se trançam com a época da segunda guerra e os documentos dela provenientes. O arqueivo de Arendt relatam a vida e as atividades da autora. Com mais de 25 mil itens e cerca de 75 mil imagens digitalizadas tem uma a coleção tem textos inéditos como discursos, cartas, artigos, aulas, manuscrito de livros famosos. Dentre os inéditos está o curso da University of Chicago sobre os crimes da segunda guerra mundial  "Nuremberg War Crime Trial, a Seminar, 1968

Outros documentos de Arend são: "Aulas sobre o pensamento Kantiano: de Aristoteles a Maquiavel"; O primeiro rascunho e de "Entre o passado e o futuro" A versão publicada no New Yorker Times do livro “Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil”

A mente humana procura fugir das coisas que a assombram como realidades falsamente construídas. Cria, assim, memórias clandestinas que por seu constrangimento não querem ser domiciliadas e esquecidas e precisam ser recontadas. Estas memórias furtivas e emaranhadas se agregam pela narração de diferentes indivíduos, por caminhos alternativos e com diferente interpretação. Seu núcleo de verdade será sempre a soma do que delas é dito em diferentes recontagens como nestes arquivos com endereço certo.

AAB


Biblioteca Franklin Delano Roosevelt
http://www.fdrlibrary.marist.edu/library/index.html

Os Arquivos de Hanna Arendt
http://memory.loc.gov/ammem/arendthtml/arendthome.html

As we may Think
http://www.theatlantic.com/magazine/archive/1945/07/as-we-may-think/3881/

sábado, janeiro 01, 2011

Este é em novo tempo um novo mundo: o fim da base fixa para a informação



A atualidade experiencia, sem muitos perceberem, uma mudança sem precedentes no formato das bases da informação. Uma base de informação é formada pelo suporte e inscrições neles fixados. Referencia o modo como uma sociedade organiza seus documentos em função de seus conteúdos.

Convivemos, cada vez mais intensamente, com uma formatos abertos de informação que permitem a criação individualizada e sua edição instantânea. Cada vez mais se lê diretamente na tela do computador pessoa onde os píxeis de fósforo ligam e desligam tal pirilampos que se anunciam e dissipam como os mecanismos do próprio pensar.

Virtualizam-se, assim, as bases de inscrição das narrativas e as bases de som e de imagens. O grande ator que sai de cena é a base fixa como o papel para a escrita e as base em celuloide para som e imagem

A Polaroid se disse adeus a fotografia em 2008; a empresa que se tornou sinônimo de fotografia instantânea fechou as portas. A Polaroid não conseguiu acompanhar a tecnologia digital que mudou a cara da fotografia para sempre. Qual a necessidade de pagar o custo e esperar o tempo da revelação e impressão em papel? A Kodack vai deixar de produzir o Kodachrome, um símbolo de impressão de imagens a cores, e as substâncias necessárias para revelar fotos.

Os cinemas comerciais já disseram adeus ao já velho filme de 35 mm. Sistemas de projeção digital facilitam a vida de distribuidores e o suporte em celuloide fica para os colecionadores. A qualidade digital da projeção melhora, também, as condições de recepção. O filme é transformado em arquivo digital e armazenado em um servidor, que o envia via satélite para os aparelhos dos complexos tipo "Kinoplex" em diferentes espaços geográficos. A partir daí, basta um clique na hora marcada para que o filme seja projetado sem interrupções em uma sala de exibição.

As gravadoras já comercializam música em cartões digitais só de leitura. Um cartão magnético de memória é inserido no "slot" USB do seu receptor de som. Não risca, não arranha, não mofa, o espaço de armazenagem é muito pequeno, o custo muito menor. Comece a se despedir ou colecionar os seus CDs. Eles ficarão raros. As lojas de sua comercialização começam a fechar.

A transmissão da voz e de músicas por rádio digital foi aprovada pela Agência Nacional de Telecomunicações. A nova tecnologia começa a funcionar em caráter experimental em emissoras de algumas capitais. Você continuará a ouvir o seu futebol, mas não mais no radinho de pilha.

A tecnologia de rádio digital permite a compressão dos sinais de voz abrindo o rádio para a transmissão de textos e imagens. Os novos receptores poderão transmitir vídeo com os clipes da música tocada; o ouvinte também pode ler informações complementares às notícias transmitidas pela emissora, como autor, título da música, etc.

O rádio digital permitirá a transmissão de até três programas simultâneos, na mesma frequência, para públicos diferentes. Na verdade você terá que trocar, também, todo o sua aparelhagem de recepção de som,pois o que está em sua sala, não tem o slot USB e cedo seguirá o caminho do museu de imagem e som.

São grandes as transformações desta mudança estrutural das bases da informação, a maior delas, seguramente será o formato papel como base de informação. Está será a mudança mais sofrida pois estamos culturalmente apegados ao papel como base para a escrita, como se fosse uma extensão de nosso olhar. O livro de papel é um amigo tão querido que muitos recusam a ver que entrou em fase final.

Michel Lesk* tem um famoso artigo chamado: "As 7 idades da informação" trata indiretamente do fim do papel como base para conteúdos. Sua cronologia das idades da informação a partir do seculo XX papel começa em 1945 com o artigo de Vannevar Bush, passando pelas seguintes fases:

• Childhood (1945-1955)
• The Schoolboy (1960s)
• Adulthood (1970s)
• Maturity (1980s)
• Mid-Life Crisis (1990s)
• Fulfillment (2000s)
• Retirement (2010)

Segundo Lesk, o último tempo como o da senilidade foi o ano que acabamos de deixar. Nesse ponto 65 anos após o artigo "As we may think" de Vannevar Bush pode-se imaginar que, todo o trabalho de conversão para texto digital acabou; existe uma outra linguagem e a informação se livrou também dos estoques físicos em espaços específicos.

The Seven Ages of Information Retrieval ,
http://www.lesk.com/mlesk/ages/ages.html

segunda-feira, setembro 13, 2010

Um tesouro construído de palavras



O Thesaurus de Roget teve grande sucesso de público nos países de língua inglesa e foi também traduzido para diversas línguas. A palavra thesaurus etimologicamente significa tesouro tendo sido usado durante muitos séculos para designar um léxico, ou um tesouro de palavras.

Esta palavra popularizou-se a partir da publicação do Thesaurus of English Words and Phrases, de Peter Mark Roget, em Londres, 1852. O subtítulo de seu dicionário expressa bem o objetivo: classsified and arranged so as to facilitate the expression of ideas and to assist in literary composition (Roget, 1925)

O sentido actual da palavra remete a um catálogo classificado de palavras, reunindo-as pela ordem alfabética, de acordo com as “ideias que exprimem: conceitos abstractos, espaço, matéria, intelecto, vontade e afeição.

O Thesaurus de Roget expressa bem o que o autor pretendia com sua obra: classificar e ordenar para facilitar a expressão de ideias e auxiliar na narrativa. A questão é colocada da seguinte forma:um catálogo de palavras mostrando significados análogos vai sugerir, por associação, outras imagens de pensamento.

Na adaptação da obra de Roget para o francês o seu título ficou Dictionnaire idéologique: recueil des mots, des phrases, des idiotismes et des proverbes de la langue française classés selon l’ordre des idées. Assim nos países de língua latina os thesaurus e dicionários analógicos são também conhecidos como dicionários ideológicos no sentido de aumentação de ‘ideias’.

O Thesaurus de Roget é um peça importante na história da informação e sua técnicas e pode ser visto ou baixado integralmente no site:

Roget's Thesaurus of English Words and Phrases
http://www.gutenberg.org/files/10681/10681-h-body-pos.htm

domingo, agosto 01, 2010

Escrevendo sobre o ato de escrever textos acadêmicos


"Na palavra falada temos que ser, em absoluto, do nosso
tempo e lugar; não podemos falar como Vieira, pois nos
arriscamos ou ao ridículo ou à incompreensão. Não
podemos pensar como Descartes, pois nos arriscamos ao
tédio alheio. A palavra escrita, ao contrário, não é para
quem a ouve, busca quem a ouça; escolhe quem a entenda,
e não se subordina a quem a escolhe. Na palavra escrita
tem tudo que estar explicado, pois o leitor nos não pode
interromper com o pedido de que nos expliquemos melhor."
(Fernando Pessoa. O livro do desassossego)


"Não fomos construídos para ler. Na verdade, a leitura é uma aventura."
(Michael Merzenich, neurocientista)




Existe atualmente uma crise da escrita e leitura tradicional. Uma linguagem nova urdida no imediatismo dos meios digitais está querendo fechar um capitulo na história das narrativas impressas em formato papel. Desde 1990 as tecnologias da informação digital estão definitivamente inseridas no contexto do pensamento e dos atos para gerar e receber a informação. Fatos e ideias tinham um percurso formal e bem definido dentro de um mundo onde a textualidade era pautada pela escrita em papel. Existe, hoje, uma diferente configuração para plublicitar fatos e ideias.

O imaginário do receptor ampliado por novas visualizações na aventura hipertextual explodiu o formato dos meios tradicionais. Palavras e enunciados tem na condição digital um caminho de significantes liberados. Acredito que iniciamos um novo padrão da escrita e da leitura nestes tempos digitais. As pessoas, ainda escrevem com todo o maneirismo da escrita para o papel. Mas na tela, e só se pode ler um hipertexto na tela, existe um novo olhar para um novo documento que antes de tudo deve ser leve e agradável a esta apreciação diferenciada de uma leitura onde o imaginário se liberta no link. Uma escrita que não quer ser impressa.

Um artigo científico deve ser escrito com clareza, precisão e, sobretudo, quando todos vão ler na web com uma visualização adequada para esta leitura online. O leitor deve ficar interessado na narrativa para se manter conectado e ser capaz de entender o seu conteúdo facilmente. Uma escritura deve apresentar adequadamente os objetivos, o porquê e como foi escrito – a sua metodologia - os resultados encontrados e suas aplicações.

Artigos científicos e técnicos são recusados para publicação devido a qualidade na sua apresentação. Possuem frequentemente um excesso de informação irrelevante, ausência de conclusões precisas, tabelas e gráficos mal arranjados e em demasia e deficiência na apresentação dos resultados.

O escrever acadêmico é rico em citações. Mas deve ser lembrado que em cada citação o autor passa a autoria do seu texto para a voz de outrem. Se uma narrativa possui mais da metade de suas linhas como citações, incluindo alguns quadro e tabelas, a autoria é difusa e em rede. Não há mais um autor definido.

Pela mesma razão não se pode ter um texto de 20 páginas com muitas citações, links, quadros e tabelas de outra autoria e ao concluir tudo isso o seu autor o faz em apenas uma lauda. Como diria Pessoa “arriscamos ou ao ridículo ou à incompreensão”.

Além de manter uma boa organização na apresentação dos objetivos, fatos e conclusões, há que cuidar da ortografia e a gramática para que o leitor não tenha problemas para entender o que está dito. Ele não pode perguntar ao texto uma nova explicação.

Existem várias formas para se publicar um artigo técnico ou uma publicação científica, como: divulgação científica, revisão temática, descrição de aplicação de um modelo, um artigo de opinião do autor. Mas os artigos preferidos por editores e leitores são aqueles onde, em sua maior parte, existe um questionamento original e com nítida preponderância de enunciados reveladores de uma reflexão própria do um autor.

O que faz de um indivíduo um autor individualizado é o fato de podermos demarcar através de seu nome e da família de seus textos o pertencimento a uma área temática. Textos se conectam através de uma linhagem de vínculos semânticos determinados por aproximações e afinidades ao longo da institucionalização de um campo em uma cultura. O que faz de um indivíduo um autor é o fato de através de sua assinatura reconhecermos os textos que lhes são atribuídos. Se um conteúdo foi desenvolvido por uma rede ou um grupo de pesquisa esta autoria perde sua individualidade e é responsabilidade da rede ou grupo e não mais de pessoas únicas.

É preciso cuidar para não tipificar ou especificar seu artigo como uma simples descrição, sem uma reflexão, análise e avaliação de literatura; evitar textos cujo formato mostrem uma estrutura típica de uma “adaptação” de um trabalho de final de curso em novo aproveitamento. Os enunciados com autoria múltipla devem poder indicar a contribuição de cada um dos autores para o artigo de maneira clara e explicita no conteúdo. É preciso cuidar, ainda com narrativas excessivamente específicas e descritivas de um serviço ou produto ou que sejam fortemente baseados em um determinado contexto, um local geográfico ou uma empresa e seu produto.

Faça um título curto, que chame a atenção e reflita o tema principal do artigo. Não deve ser muito longo; registre o seu nome e a sua filiação institucional de forma uniforme e sistemática como usa em todas as suas publicações, para que seus artigos possam ser reconhecidos e citados de forma correta.

As pessoas se baseiam no Resumo ou no Abstract para decidirem ler ou não o artigo. Os indexadores eletrônicos da web vão varrer o seu resumo e o “abstract” para formar sua base. Assim, sintetize de maneira precisa os tópicos principais do artigo e as conclusões obtidas. Não utilize mais que 250 palavras nisso. Limite o número de tópicos inseridos para evitar confusão na identificação do conteúdo. Não inclua referências, figuras, citações, siglas ou equações matemáticas no resumo.

O Abstract é a versão do resumo em inglês. Por uma questão de coerência, ele deve possuir tamanho e significado compatíveis com o resumo. A versão em inglês não necessitará ser uma tradução literal do resumo, mas sim uma tradução adaptada à outra língua. Use frases de até 2 linhas no máximo. O leitor na língua inglesa não consegue perceber o significado em longas frases, entre vírgulas e com orações subordinadas e/ou coordenadas.

Por vezes, editores solicitam a inclusão de um conjunto de palavras-chave que caracterizem o seu artigo. Estas palavras serão usadas posteriormente para permitir, também, que o artigo seja encontrado por sistemas eletrônicos de busca. Por isso, você deve escolher palavras-chave que identifiquem os significados do texto. Um bom critério é selecionar as palavras que você usaria para procurar na web um artigo semelhante ao seu.

A introdução é uma síntese geral do conteúdo do artigo sem entrar em muitos detalhes. Especifique a relevância da publicação: explique como o trabalho contribui para ampliar o conhecimento em uma determinada área e se ele apresenta novos métodos ou modelos para resolver um problema; se ele é um trabalho de opinião do autor ou de um grupo de pesquisa. Apresente uma revisão da literatura com escritas básicas sobre o assunto, mas em sua maioria as publicadas nos últimos 5 anos e que sejam específica ao tópico.


Corpo do artigo:
Determine o problema estudado, explique a terminologia básica, e estabeleça claramente os objetivos e as hipóteses. Note que artigos são frequentemente rejeitados para publicação porque os autores apresentam os objetivos pouco claros ou de realização impossível.

Apresente as formulações teóricas. Informe a metodologia e todo instrumental e os métodos de trabalho de forma que os leitores sejam capazes de entender como o estudo foi realizado. Indique os procedimentos de uma forma coerente. Dê crédito ao trabalho de outras pessoas: não invente conceitos se não tiver uma base teórica que os suporte e forneça detalhes e definições dos conceitos discutidos ou indique a fonte que os explique.

Um problema comum em artigos técnicos é o uso inapropriado de tabelas e figuras que podem confundir os leitores. As falhas principais seriam: a falta de análises das estatísticas tabeladas, a abundância de percentuais e numerais no texto, falta de nitidez do escrito dentro de figuras, tabelas e gráficos.

Tabelas devem ser incluídas quando se deseja apresentar um número pequeno de dados e se recheadas de texto inibem a leitura. Lembrar que a maioria dos artigos vai ser disponibilizada na web e necessita ter uma boa visualização do conteúdo. Evite um conteúdo recheado indicações em caixa alta, negritos, e sublinhados. Nunca apresente uma sigla substituindo o extenso e não use frases de mais de 50 palavras. A seção Resultados deve apresentar as reflexões sobre as evidências de seu estudo. Se não puder escrever com facilidade sobre a importância de suas evidências o artigo não merece ser escrito. Conclusões e resultados devem ter pelo menos 5 laudas

Você pode iniciar a sua conclusão mostrando o que é novo e relevante em seu texto. A conclusão deve ser analítica, interpretativa e incluir argumentos explicativos. Deve ser capaz de fornecer um dialogo conceitual lógico e coerente dos resultados apresentados e suas possíveis aplicações. Forneça informações completas sobre as referências utilizadas. Um artigo mesmo com a forma de um ensaio de reflexão do autor, não deve conter menos que 50 referências. Insira como anexo as informações que não são precisam ser visualizadas no texto principal como: questionários, entrevistas, descrição do software utilizado, relação bruta de dados.


Roteiro para checar o texto antes de enviar para publicar:

1 Título: reflete o conteúdo, as palavras utilizadas são apropriadas.

2 Precisão do texto: as informações estão claras sem excessos de diagramas; os parágrafos estão adequados para leitura.

3 Estilo: o conteúdo está correto e de visualização adequada para a web?

4 Apresentações dos dados: tratamento das figuras e tabelas esta adequado; há algo que deveria ir para o anexo.

5 Justificativa: foram esquecidos artigos históricos ou clássicos na revisão; Foi obedecida uma cronologia;
como foi abordado o arcabouço teórico adotado e como este arcabouço está inserido no campo do artigo;

6 Está explicitado: o tipo de metodologia utilizada; os instrumentais e os métodos usados; o local de realização da pesquisa; ( entidades envolvidas); os critérios de inclusão e exclusão de dados; as variáveis estudadas e sua mensuração?

7 No conteúdo : as principais perguntas foram respondidas; os erros ortográficos e de concordância são só acidentais? O estilo de redação é bonito, direto, claro e objetivo? A sequência de raciocínio é lógica e faz sentido? A visualização é de boa qualidade tanto para a mídia impressa quanto digital; o mesmo estilo foi utilizado em todo o texto? Há excesso de formatação no texto ou muitas figuras, tabelas, etc.; os anexos são relevantes.

8 Resultados: os resultados encontrados são coerentes; foram apresentados de forma assimiláveis; foram enfatizados os resultados inovadores; foram discutidas as limitações dos resultados; a a apresentação está adequada.

9 Conclusões: estão apropriadas e corretas? ( em harmonia com os objetivos? Com a metodologia e os métodos? Com os resultados esperados?); as descrições das conclusões têm um espaço coerente para tratamento das reflexões finais do autor? Foram enfatizados os principais resultados encontrados; as questões colocadas no texto foram respondidas nesta finalização.


Finalizando é importante ressaltar que a velocidade da escrita, da leitura e sua assimilação mudaram, assim como mudou a quantidade de informação à qual estamos expostos. A intenção destas notas é evitar o estresse cognitivo do leitor, apresentando a informação de maneira visualmente destinada para a percepção amigável. Sempre é conveniente lembrar que: “toda leitura é uma aventura” e é o autor que registra o script dessa odisséia.

Aldo de Albuquerque Barreto

segunda-feira, maio 31, 2010

A Biblioteca guarda o nome de todas as Coisas


Um dia veio uma peste e acabou
com toda a vida na face da terra
Em compensação ficaram as bibliotecas
E nelas estavam meticulosamente escrito
o nome de todas as coisa! *


Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras no nosso imaginário; o filme uma imagem em movimento tem, portanto, incalculáveis apelos a nossa sensação e sentimentos: uma explosão de nossa imaginação.

É o que acontece com o filme "Agora" que mostra em sua narrativa o incêndio da biblioteca de Alexandria e reacende o “fogo” das paixões relacionados à biblioteca e seus livros.

A Biblioteca de Alexandria original foi destruída há 1.700 anos pelo fogo e foi reconstruída quase no mesmo local; a reconstrução levou 20 anos para ser concluída e a magnífica obra foi reinaugurada em 2002. Logo depois o fogo destruiu parte de seu complexo cultural recentemente inaugurado. A biblioteca reacendeu seus laços com o fogo, desta vez não tão devastador.

Conta à história que há 1700 anos, quando o exercito inimigo capturou Alexandria , um intelectual Grego pediu ao comandante das forças de ocupação para salvar a Biblioteca, o pedido seguiu a linha de comando até chegar ao chefe que respondeu:

“Se estes escritos estão de acordo com o Livro de Deus eles não tem qualquer valor e não precisam ser preservados; se deles discordam eles são perniciosos e devem ser destruídos”.

Há nessa frase toda uma história de ocultamento da informação por questões de poder, política e religião, que perduram até hoje. Talvez o debate sobre Biblioteca como a fonte de saber venha da enorme responsabilidade colocada no valor simbólico desta estrutura de informação:

"As bibliotecas, ao longo dos séculos, têm sido o meio mais importante de conservar nosso saber coletivo. Elas foram e são ainda uma espécie de cérebro universal onde podemos reaver o que esquecemos e o que ainda não sabemos..... uma biblioteca é a melhor imitação possível, por meios humanos, de uma mente divina, onde o universo inteiro é visto e compreendido ao mesmo tempo."

"Mas é próprio de nosso trabalho, do trabalho de nossa ordem e em particular do trabalho deste mosteiro, aliás, a sua substância – o estudo e a custódia do saber, a custódia digo não a busca, porque é próprio do saber coisa divina, ser completo e definido desde o inicio, na perfeição do verbo que exprime a si mesmo.... Este é o trabalho de nossa abadia com sua com sua esplêndida biblioteca. Não há progressos, não há revoluções de períodos na história do saber, mas no máximo, continua e sublime recapitulação.." discurso do abade Jorge sobre a biblioteca do O Nome da Rosa de Eco

Há nestas citações de Humberto Eco toda uma ideologia de poder, do secreto e do sagrado que é associado à instituição.

A mesma forma de exclusão pelo preconceito foi filmada em "Farenheit 451" A realidade descrita no filme de Truffaut, mostra um Corpo de Bombeiros que tem a função de queimar livros. Neste futuro hipotético, os livros e toda forma de escrita são proibidos pelo regime, pois torna as pessoas infelizes e improdutivas. Se alguém é visto lendo é preso para reeducação. Se uma casa tem muitos livros "bombeiros" são chamados para incendiá-la. Mas, existe uma terra dos homens-livro, pessoas que memorizavam seus livros para publicá-los no futuro. À possibilidade de ler alia-se, novamente, aos privilégios do poder ser, poder fazer, poder decidir par gerar a superstição .

Uma outra indicação do travamento do uso da biblioteca devido sua estrutura foi quando da inauguração do Centro Georges Pompidou, no centro de Paris em 1977, como espaço voltado para a cultura e o saber. O Centro mostrou o efeito a alienação provocada pelos "Palácios do Saber”, ou seja, o tratamento espetacular dado a uma área em contradição com o intento instrutivo e formativo daqueles espaços. O centro foi visto por muitos como labirintos, onde as pessoas se sentiam pouco à vontade de acordo com seu habitus de convivência. Os visitantes reclamavam que não podiam contar com suas condições cognitivas para lidar com as referências engendradas pelo espaço que provocava uma sensação de desconforto. Algumas e se sentiram ameaçadas ou mesmo enganadas.*


A responsabilidade colocada na biblioteca, como tendo uma resposta às questões universais, pode ser a culpada pelo seu estranhamento com o mundo. Poetas escritores e violeiros cantam que a biblioteca é eterna e possui todos os conhecimentos; daí espera-se encontrar ali, também, as respostas para todas as questões do universo: guerra, paz, justiça e injustiça, poder, violência. Colocaram opções pesadas para a biblioteca responder. Porém a resposta de tudo não esta só ali, a biblioteca guarda a informação, a resposta está no conhecimento que é fruto da razão e do coração dos homens, os mesmos muitas vezes querem vê-la queimar.

Aldo de A Barreto


*AGORA - O filme
http://movies.nytimes.com/movie/453107/Agora/trailers

* As Bibliotecas, Mario Quintana, Preparativos de Viagem, 1987.

* Umberto Eco é romancista e semiólogo. Os fragmento são do texto Muito além da Internet, de dezembro 2003,e de seu livro O nome da Rosa.

* Centro Nacional de Arte e Cultura Georges Pompidou - Les immatériaux http://www.dgz.org.br/abr10/Art_02.htm