
No início do seu elogiado livro "The writing revolution - cuneiform to the internet" (A revolução da escrita - do cuneiforme à internet, Blackwell, 2009), Amalia Gnanadesikan diz que a escrita é um sistema que ela classifica como uma tecnologia maravilhosa que possibilita, do passado, falar diretamente ao futuro.
“Aprender um sistema novo de escrita é como aprender um código secreto, só que muito mais útil no cotidiano. Uma revolução ocorre cada vez que uma escrita é decifrada. A decifração dos hieróglifos egípcios por Champollion na década de 1820, por exemplo, reintroduziu para o mundo um modo de escrita que era completamente esquecido e muito mal-entendido na época.
Ninguém acreditava que a escrita linear pudesse ser Grego até sua decifração por Ventris na década de 1950. Chegou-se a pensar que os Glifos dos maias não passavam de um calendário complexo, até que sua decifração começou nas décadas de 1950 e 1960.
Nós humanos somos criaturas linguísticas. Nossa comunicação se dá por meio da linguagem e até pensamos tendo-a como base. Então, quando comunicamos nossos pensamentos por meio da escrita, primeiramente nos trajamos de linguagem. De fato, é o que define a escrita. Ela é algo que você lê como 'linguagem' e não um mero conjunto de ideias vagas. Para tornar suas ideias mais específicas, você precisa usar palavras." (citando a autora em http://cienciahoje.uol.com.br/zmi/cienciahoje/revista-ch/2010/268/a-maior-invencao-humana)
A Internet e as adaptações da web provocaram uma espécie de reposicionamento da escrita e da leitura com uma nova forma de emissão da palavra. A postagem tem um código de referência reduzido e simplificado e, de alguma maneira, subverte a estrutura da linguagem. A velocidade na troca da informação fixa uma economia de palavras na entrada de texto em um meio digital.
Uma postagem mostra o estranhamento e a individualidade dos discursos em convivência. A postagem se relaciona com o "differend" * e não com o consenso. Em um formato digital a sensação da percepção dos significados não é universal em sua condição estética.
O diferend não pretende se alinhar a nenhum formato ou uma escrita que represente um pensamento geral, pois ele é o estado instável da linguagem, o sentimento que se tem de não saber , ainda, como colocar o pensamento em frases . O differend coincide com um o estado emotivo do pensamento; é aquela impressão que temos de não conseguir achar as palavras certas para finalizar o nosso discurso.
A Internet cria, assim, uma escrita virtual, uma fala digitalizada que mescla das duas modalidades da língua: a linguagem do pensamento do emissor com sua edição imediata quando lançada no postar.
Na troca veloz da informação o conteúdo só interessa a quem escreve e a quem lê. Assim como é inútil tentar corrigir a língua falada, também parece inútil tentar vigiar e corrigir a língua escrita na web, porque ela é fugaz, efêmera e se dissipa na maioria das vezes ao final de uma interação; raramente chega a ser impressa em papel.
A exatidão e objetividade da verbalização textual distanciaram a escrita dos laços sentimentais e emocionais, que está sendo resgatado no formato digital de convivência e reconstruído na sociabilidade virtual. Inovando, pois a simbologia na comunicação entre parceiros digitais, que trocam mensagens criando símbolos com novos significantes para antigos significados.
* LYOTARD, JEAN-FRANÇOIS. The Differend: Phrases in Dispute. Minneapolis: U of Minnesota , USA 1988. - Lyotard descreve a incomensurabilidade da imaginação e da razão como um differend. O differend é ser encontrado no centro do sentimento sublime: no encontro dos dois 'absolutos' igualmente presentes para o pensamento, a totalidade absoluta quando se concebe e o absolutamente medido quando se apresenta. A situação é análoga a uma colisão de dois jogos de linguagem diferentes: cada um absoluto nas suas regras.